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RESENHA Todas as Pequenas Luzes

20 de fevereiro de 2019

 Hoje é dia de resenha e ela vem com um gostinho especial porque é sobre uma autora que definitivamente marcou a minha adolescência. Jamie McGuire é autora da famosa série Belo desastre e que desencadeou muitos outros livros, na época dos lançamentos, eu e muitos outros leitores surtavam com essa história mas depois de muito tempo vejo alguns probleminhas e alguns pontos que a Dayhara de hoje, não encararia de maneira positiva em uma leitura. Depois de Belo Desastre eu nunca mais tive contato com a escrita da autora, apesar de amar suas obras e a maneira frenética que sua narrativa acontecia, acabei migrando para outros rumos, e Jamie também migrou! A Verus lançou Todas as pequenas luzes e posso afirmar com tranquilidade que a autora mudou bastante, em muitos aspectos, o dinamismo entre os personagens é outro, não há mais aquela urgência, o desespero desenfreado, o ciúmes romantizado, nada do que me existia em Belo desastre consta aqui, apesar das obras serem bem diferentes entre si, acho importante fazer esse comentário porque muita gente via a relação presente em Belo Desastre, Desastre eminente etc, como abusiva, e sinceramente acho que Jamie ouviu com atenção os seus leitores e nos proporcionou uma obra bem mais leve em diversos aspectos, mas não menos importante ou menos arrebatadora. Me envolvi e me surpreendi como na adolescência e isso me deixou bastante feliz.


Catherine e Elliot se conheceram ainda pequenos, o encontro aconteceu de maneira bastante inusitada, enquanto ele está em uma árvore uma garota chama a sua atenção e ele começa a fotografá-la, a aproximação acontece daquele jeito típico de criança fazendo amizade, né? Ambos desconfiados, fofos. Acontece que Elliot não mora na cidade, ele passa os verões na casa da tia e aproveita a ocasião para fugir do tumulto que é sua família e das brigas cheias de ódio entre seus pais. A amizade entre eles floresce mas Elliot sabe que uma hora terá que ir pra casa, aos poucos eles se tornam unha e carne, ele sempre tentando proteger Catherine que é odiada por todas as meninas da cidade e sempre é deixada de lado, um servindo de suporte emocional para o outro, mas quando Catherine mais precisa de Elliot, ele precisa ir embora, ela se vê abandonada por ele e nutre muita mágoa por conta disso, ela acredita que sofreu um grande golpe vindo dele, mesmo o leitor sabendo que as coisas não são bem assim.
"Tive vontade de dizer que eu não mordia, que eu até podia odiá-lo por ele ter ido embora, e fazendo sentir sua falta por dois longos anos, mas havia coisas mais importante no mundo para ele realmente temer." 
Essa história é um grande tapa na cara em diversos momentos, os dois protagonistas ainda pequenos aprendem que a vida não é perfeita como nos livros e nos filmes, que a família muitas vezes pode ser um fardo esmagador e que é preciso ter alguém por perto para ser seu ombro amigo. Acontece que Elliot precisa ir embora não porque quer, mas sim porque sua família impõe isso, Catherine não entende a situação e se vê no direito de ficar magoada com o garoto por conta disso, mas convenhamos, se você é uma criança e sua família manda você voltar pra casa, com que autoridade você irá contra? Simplesmente não dá! Depois de muito tempo Elliot volta, porque ele ainda nutre sentimentos por Cath e quer reparar a situação toda, mas é aí que a coisa desanda um pouquinho, ela não é nenhum pouco compreensiva, age de modo grosseiro e não perdoa o garoto com facilidade, eu achei isso um pouco melodramático, ambos já cresceram, qualquer um é capaz de ver que ele não foi embora porque quis, simplesmente não tinha escolha. Além disso, Cath vive uma vida que sinceramente não desejo para ninguém, ela trabalha feito louca, sofre bullying na escola, não tem tempo pra si, ela não vive a vida de uma adolescente normal. Elliot tenta ajudar, se aproxima novamente mas ela não dá brecha alguma, em partes por conta da mágoa que ainda carrega e em outras por conta dos segredos que esconde, tudo é muito misterioso quando se trata dela e sua família.


Se você espera algo como Belo Desastre pode ir parando por aí, a pegada dessa obra é totalmente diferente! Apesar do ritmo um pouco lento no início, assim que Elliot volta, as coisas começam a acontecer de maneira mais acelerada, é notável a mudança da protagonista, ela não tem planos e nem expectativas porque diz que suas obrigações são outras, mas quais? Sua casa não é um bom lugar para se viver, ela se sente esgotada e sem forças para lutar contra isso, e o segredo que Cath guarda tão bem é devastador e faz com que tenhamos muito mais empatia por ela.

Eu iniciei essa história esperando algo sensual e bastante explosivo, porque era a marca da autora, mas dei de cara com mistérios, segredos e um romance fofo e bastante gradual. O plot da obra deixa você de queixo caído, eu demorei para entender o que era e quando descobri, fiquei totalmente sem reação, Jamie segue brincando com as minhas emoções desde sempre. Foi uma leitura bastante agradável, um pouco lenta no caminho mas que quando engrenou não consegui mais desgrudar, os personagens possuem uma carga dramática bastante forte e a maneira que eles procuram se ajudar é louvável. O final mexeu bastante comigo e precisei de alguns bons dias para absorvê-lo realmente, essa capa é linda demais e condizente com o enredo, a trama é dividida entre o ponto de vista de ambos os personagens e isso foi bastante importante porque os dois apesar de possuírem dramas muito reais, encaram as coisas de maneiras bem dicotômicas, enquanto Elliot prefere encarar tudo sem medo, batendo de frente, Cath é mais cabisbaixa e aceita as coisas, mais por cansaço, conformismo, seus segredos que deixam ela completamente amarrada… Tudo é muito comprometedor para ela. 

Se você procura uma obra que passeia por vários gêneros, brinca com as suas emoções de todo modo e te prende de maneira sem igual, Todas as pequenas luzes é a leitura certa para você!


Título: Todas as Pequenas Luzes
Autora: Jamie McGuire
Editora: Verus
Nº de Páginas: 350
Sinopse: "Quando Elliott Youngblood vê Catherine Calhoun pela primeira vez, ele é apenas um garoto com uma câmera nas mãos que nunca viu algo tão triste e tão belo. Os dois se sentem excluídos e logo se tornam amigos. Porém, no momento em que Catherine mais precisa dele, Elliott é forçado a sair da cidade. Alguns anos depois, Elliott finalmente retorna, mas ele e Catherine agora são pessoas diferentes. Ele é um atleta bem-sucedido, e ela passa todo o tempo livre trabalhando na misteriosa pousada de sua mãe. Catherine ainda não perdoou Elliott por abandoná-la num momento difícil, mas ele está determinado a reconquistar a amizade dela ― e a ganhar seu coração. Bem quando Catherine está pronta para confiar outra vez em Elliott, ele se torna o principal suspeito em uma tragédia local. Apesar da desconfiança de todos na cidade, Catherine se agarra ao seu amor por Elliott. Mas um segredo devastador que ela esconde pode destruir qualquer chance de felicidade que os dois ainda têm." *Exemplar cedido em parceria com a editora.

Resenha Carne Crua

18 de fevereiro de 2019

Ano passado fomos parceiros da editora Nova Fronteira e fazer parte desse time foi uma das experiências mais primorosas que toda a equipe do blog já teve. Ter um contato tão direto com clássicos e ter em nossas mãos edições tão lindas além de aumentar o nosso amor pelos livros, renovou a fé em nosso curso(Letras) porque nada nos move mais do que edições lindonas e amor! Hahaha. Pois bem, Carne Crua foi uma das apostas de final de ano da editora e sinceramente... Não sei dizer como o meu coração aguentou essa leitura, arrebatadora! Uma experiência tocante e que me deixou sensível para muitas questões. 

Carne crua, de Rubem Fonseca é um livro de 26 contos cada um com a sua peculiaridade, mas sem deixar de ter o famoso toque rápido de uma escrita certeira que só Fonseca tem.

São contos rápidos de se ler, mas a cada linha um aprendizado, a cada conto uma lição diante do que estamos sujeitos a passar no convívio com a sociedade lá fora. Repleto de críticas sociais (a começar pela capa), o livro trabalha com diferentes temas, envolvendo de amor até assassinatos, confiança, traição, além de vingança, corrupção, e muito mais. Um verdadeiro apanhado de injustiças sociais. Para deixar vocês cientes da maravilha que é essa obra, falarei especificamente do conto que também dá nome ao livro. 


 O Conto: Carne Crua – a bondade ou a falta dela

Aqui temos a história de uma criança que perder seus pais muito cedo, ainda durante a amamentação e que por isso foi morar com os tios. É nesta nova casa que lhe desperta o interesse por comer carne crua. Essa nova família que fazia churrasco todos os sábados tinha a ajuda do menino na cozinha, mas ele apenas ajudava para garantir a sua carne crua despercebida pelos olhos dos familiares. 

Além disso, criança tinha a necessidade de matar animais, era seu prazer e o fato mais marcante até então era quando sentiu o gosto da carne de um sagui que havia aparecido no fio de eletricidade no quintal de sua casa. Depois disso, aumentou sua curiosidade, descobrindo então que carne de gato também era boa e de cachorro mais ainda.

Para ele não funcionava churrasco ou carne mal passada, a carne precisava  estar necessariamente crua, era isso ou mais nada, um extremo que se pararmos para pensar, causa repulsa. Para além disso, sabemos que em alguns países o consumo de carnes de animais bem "diferentes" é permitido, pois bem, o garoto resolve alimentar seu vício optando por um animal totalmente fora do comum, e o meu choque foi enorme, pensar em como uma criança foi capaz de movimentar situações ao seu favor, tudo para conseguir a carne tão desejada é horripilante e por muitas vezes me questionei como esse garoto é facilmente visto como um pequeno psicopata, o que não deixa de ser verdade, tamanha é a inteligência do menino... O final é surpreendente e me fez temer pelo futuro, pensar quais as chances dessa história ser real. Mas o mais interessante é que ao final me peguei pensando sobre o meu consumo de carne e sinceramente, tenho evitado, sinal de que absorvi bem a leitura, não? Hahah. 


Rubem Fonseca é um autor que merece ser chamado de cru também! Ele não deixa de lado nenhum detalhe, e se você for sensível para algumas situações, pode não se sentir confortável com a leitura, mas além disso, ele é capaz de em um simples conto, te fazer questionar sobre o seu estilo de vida, alimentação, seu posicionamento na sociedade e as mil maneiras que você indiretamente, pode ir contra tudo que é considerado normal pelos outros, afinal, quantos segredos você esconde? Quantos gostos incomuns você alimenta? Uma leitura forte, arrebatadora e que servirá como dica para muitos amigos, Carne crua te faz questionar, te tira da zona de conforto.




Título: Carne Crua
Autor: Rubem Fonseca
Editora: Nova Fronteira
Nº de Páginas: 144
Sinopse: "Rubem Fonseca é um verdadeiro mestre na arte de esfolar a pele das palavras para deixar as histórias em carne viva. Neste seu livro mais recente, o autor reuniu 26 textos que, embora mantenham a crueza de assassinatos, traições e injustiças sociais, trazem também a avidez das descobertas, a delicadeza das histórias de amor e uns flertes com a poesia."  *Exemplar cedido em parceria com a editora.

RESENHA Um Milhão de Finais Felizes

12 de fevereiro de 2019


Hoje é dia de resenha recheada de carinho, afeto, abraços apertadinhos e boas memórias! Tive a sorte de ler Um milhão de finais felizes e não sou capaz de mensurar a alegria que esse livro foi capaz de me proporcionar, como se não bastasse, a compra dele veio de uma experiência ainda mais incrível! No ano de 2018 fui para a Bienal, acabei indo no último final de semana e vocês já devem imaginar a correria que foi, né? Eu estava desanimadinha porque achei que não conseguiria encontrar nenhum autor, mas felizmente quando eu saia da sala de imprensa dei de cara com o Vitor Martins sentadinho no chão descansando, gente como a gente! Hahaha toda tímida fui pedir para autografar meu livro e sinceramente, que homem mais querido! Vitor estava cansado, passou o dia na Bienal, autografando livros e lidando com a correria, mas ainda assim, quando pedi o autografo deu um sorrisão todo animado, me deu o abraço mais acolhedor do mundo e conversou um pouquinho comigo. Antes mesmo da experiência de leitura eu já me senti totalmente realizada pelo carinho que recebi dele, admiro o trabalho do Vitor desde a época em que ele havia começado o canal no Youtube, pra quem não sabe, apesar de não postar mais vídeos, o canal dele segue ativo! Tem resenhas muito bacanas, dicas de papelaria, bullet e tudo aquilo que a gente ama, fica a dica! Você pode conferir AQUI


Agora vamos ao livro! Eu não poderia imaginar que uma obra tão curtinha fosse capaz de me envolver, emocionar e trabalhar questões tão pontuais de maneiras tão bem detalhadas. Em muitos momentos senti um apertinho no peito, temendo pelos personagens, mas na maior parte do tempo eu sorri, me apaixonei e torci para que as coisas fluíssem bem, porque pessoas boas merecem isso, e Jonas é uma dessas pessoas, ele é metido a escritor, mas daquele tipo que nunca escreve história alguma, apesar de andar sempre com seu caderninho de ideias para possíveis histórias, ele simplesmente não consegue escrever nada, talvez por algum tipo de bloqueio, ou só a procrastinação atuando até nos personagens, correto?

Ele trabalha no Rocket Café, uma cafeteria bastante famosinha e com aquela pose de hipster que todo mundo adora. Pra ser sincera, Jonas é um cara incrível demais e que parece viver em um mundo não tão justo para a sua existência, apesar de não pensar em faculdade ainda, ele é absurdamente trabalhador, apesar dos atrasos no trabalho é muito querido e bastante simpático, acontece que nem tudo são flores, ele é filho de pessoas muito conservadoras, uma mãe evangélica fervorosa e um pai bastante machista e que não aceita um filho que não tenha pose de “homem másculo”, ainda assim, Jonas é um bom filho, ajuda com as contas de casa, nunca reclama e vai para a igreja porque sabe que isso deixa sua mãe feliz, mas tudo muda quando um rapaz de barba ruiva aparece na cafeteria, é amor à primeira vista, Arthur faz a sua aparição no trabalho de Jonas como um cliente qualquer, mas isso é o estopim para o desenrolar de muitas coisas, a partir disso Jonas começa a escrever! De tão envolvido que ele ficou pelo rapaz, suas histórias finalmente começam a tomar vida e assim nasce Piratas Gays, o livro que Jonas está começa a escrever. Como coincidência nunca é coisa pouca, Arthur volta a aparecer na vida de Jonas e bagunça muita coisa em sua cabecinha, trazendo questionamentos até sobre o núcleo familiar dele.


Esse é basicamente um livro dentro de outro livro, enquanto vamos acompanhando a vida de Jonas, também vamos ler os capítulos de Piratas Gays conforme eles vão sendo escritos por nosso protagonista. A questão toda é que esse livro é puro amor, apertinho no peito e uma nova definição de família! Jonas sofre demais com seus pais, sua mãe infelizmente é uma pessoa bastante submissa e aceita os comportamentos machistas de seu marido, o pai de Jonas... É um cara que sinceramente sinto asco, ele é maldoso com sua esposa, filho, é interesseiro e bastante agressivo.
“Nem sempre a família que nasce com a gente vai nos entender. Nem sempre eles vão ficar do nosso lado para sempre. Mas isso nunca vai te impedir de escolher uma família nova.”
Conforme as coisas vão avançando, é notável que o relacionamento entre Arthur e Jonas vai ganhando grande parte da narrativa, mas nisso também surgem oportunidades para muitos questionamentos, como por exemplo a bifobia, Jonas se ver como um garoto gay e ter coragem para se assumir, as dificuldades do processo de escrita, a importância dos amigos em situações difíceis e como a família “tradicional” vem sofrendo novas configurações e o mínimo que você pode fazer é  RESPEITAR isso. As questões de homofobia são muito presentes nesse livro, principalmente por conta do pai do nosso protagonista, por outro lado, a mãe vive aquele impasse de sua religião não permitir, seu marido também não, mas ela ainda ama o filho! Ainda assim, é um livro emocionante, os amigos de Jonas são um show a parte, tem suas próprias questões, são companheiros, estão sempre prontos para animá-lo e ouvi-lo, eu sinceramente queria um livro para cada um deles! Essa é uma obra que infelizmente li em um dia só, infelizmente porque queria mais, porque Vitor me surpreendeu positivamente, sua escrita me deixou confortável, seu abraço quentinho me acompanhou durante toda a leitura e só posso dizer que sinto orgulho da nossa literatura nacional ter um representante como ele. 

Se você quer se emocionar, amar junto com Jonas e Arthur, acompanhar uma aventura de piratas gays, esse livro é para você. O final é emocionante, algo MUITO família e que te deixa com o coração quentinho, torcendo pelo futuro dos personagens. Eu muitas vezes vi Vitor no protagonista, acho que por acompanhar seu canal, Instagram e tudo mais a tanto tempo, meio que internalizei a figura física de Vitor sendo Jonas, sabe? E sinceramente, combina demais! Queria um Rocket Café na vida real, pra encontrar o meu barbudinho por lá também haha. Por hoje é só!



Título: Um Milhão de Finais Felizes
Autor: Vitor Martins
Editora: Globo Alt
Nº de Páginas: 352
Sinopse: "Jonas não sabe muito bem o que fazer da vida. Entre suas leituras e ideias para livros anotadas em um caderninho de bolso, ele precisa dar conta de seus turnos no Rocket Café e ainda lidar com o conservadorismo de seus pais, sua mãe alimenta a esperança de que ele volte a frequentar a igreja, e seu pai não faz muito por ele além de trazer problemas. Mas é quando ele conhece Arthur, um belo garoto de barba ruiva, que Jonas passa a questionar por quanto tempo conseguirá viver sob as expectativas de seus pais, fingindo ser uma pessoa diferente de quem é de verdade. Buscando conforto em seus amigos (e na sua história sobre dois piratas bonitões que se parecem muito com ele e Arthur), Jonas entenderá o verdadeiro significado de família e amizade, e descobrirá o poder de uma boa história."

Você acompanha blogueiros negros?

11 de fevereiro de 2019


Hoje o post é um pouquinho diferente do habitual, ele vem em tom de desabafo, gostaria de começar essa conversa perguntando para vocês, quantas blogueiras negras vocês acompanham? E no nicho literário especificamente, quantas pessoas que vocês acompanham são negras? Pode parecer algo bastante absurdo de se pensar, mas vou explicar o motivo desses questionamentos.


Nos últimos anos as editoras finalmente resolveram ceder um espacinho de seus lançamentos paras histórias com recortes raciais, mas nem sempre foi assim, com meus 25 anos, AGORA que me sinto representada, mas a adolescência foi um período extremamente triste, eu sempre fui leitora, mas nunca me vi nos personagens. Quando pensamos em blog a história é ainda mais triste, o Uma dose de cacto existe desde 2015 mas minha família e amigos só souberam da existência dele no finalzinho do ano passado, o motivo? Eu nunca me vi no meio literário, nunca achei que fosse um espaço pra mim e por isso sempre sentia muita vergonha. Eu trabalho ativamente com o blog tem muito tempo, com resenhas semanais e nos últimos anos ele serve como complemento da minha renda, mas eu sempre tive muita vergonha para falar aos outros que sou blogueira literária porque internamente, eu absorvia a ideia de que esse não era um espaço pra mim. Digo com tranquilidade, pelo menos 90% das pessoas que acompanho nos blogs literários são brancas, são pessoas incríveis e que admiro demais o trabalho, mas nos últimos tempos eu tenho me questionado o tempo todo, por onde anda a representatividade que lemos? O consumo não pode ficar estacionado só na leitura.


Vamos entender isso na prática? Pensemos em O ódio que você semeia, Kindred, Bruxa Akata, Hibisco Roxo, por exemplo, livros escritos por mulheres negras, que falam diretamente sobre a questão racial, livros que mostram como o racismo é uma questão estrutural, obras que mostram lindamente como a representatividade é algo importante, todas as obras citadas são sucessos de vendas. As resenhas são sempre positivas, todos se emocionam, compreendem as mensagens deixadas em cada narrativa, mas isso basta?

Não! Isso não basta, não é suficiente, queremos espaço e reconhecimento e pra isso precisamos de vocês, não basta só consumir esse tipo de obra, é preciso procurar por representantes em suas plataformas, indique sites literários feitos por pessoas negras, valorize esse trabalho, não receber reconhecimento por parte de editoras é desanimador, e do público é ainda pior. O primeiro passo para ajudar na luta por igualdade racial é reconhecer os seus privilégios, entender quão confortável pode ser a posição que você se encontra e a partir disso trabalhar ajudando minorias, dentro do espaço que você ocupa socialmente. Sendo assim, se você conhece alguma blogueira negra deixe aqui dicas! Não pense duas vezes em divulgá-las, procure meios para trabalharem juntas em prol do crescimento! Eu sempre estou aberta para projetos de leitura conjunta, bate papo, qualquer coisa, a plataforma do blog e o Instagram são canais abertos e fico feliz em falar dessas questões com vocês. Saiam da caixinha, questionem as editoras, quantos parceiros são negros? Quantos representam as minorias publicadas? Não somos só números. 

Ah, e aproveitando o momento, minha tatuagem que diz muito sobre a importância da representatividade! Essa é a Starr, personagem de O ódio que você semeia, marquei na pele a primeira vez em que me senti de fato representada. <3



Por fim, deixo aqui alguns projetos literários feitos por pessoas negras e que merecem mais reconhecimento.  Até a próxima! 

 Instagram:
 Ana Rosa
 Camillaeseuslivros

 Canais no Youtube: 

RESENHA Hibisco Roxo

8 de fevereiro de 2019


Quando iniciei o curso de Letras, um dos grandes motivos foi a matéria de literatura, a ideia de estudar sobre livros me deixava animada demais, entender correntes teóricas, o motivo da escrita... Tudo era muito mágico, mas ver isso na prática foi muito melhor! Meu professor nos indicou essa leitura para que pudéssemos analisar personagens e qual a profundidade de cada um, confesso que a última coisa que fiz foi isso, eu me prendi a essa história de tal forma que não consigo parar de ler os quotes, retomar a leitura, o mundo de Chimamanda é tão mágico que não quero mais sair dele.


Kambili é uma adolescente diferente, ela aprendeu a sussurrar antes de falar, a andar de cabeça baixa e desde sempre aprendeu que as decisões de sua vida não são dela e sim de seu pai, que sempre opta pelo caminho que Deus desejar. Ela tem outro irmão JaJa, sempre quieto, na dele, mas que desde o início você sente o espírito rebelde do garoto, e obvio que ele paga o preço por essa rebeldia, pois bem, a narradora é Kambili e você vai observar o fanatismo religioso de seu pai pelo olhar dela.


Essa leitura é pesada demais, sinceramente. O Papa, como é conhecido o pai de Kambili, é um homem rico, dono de várias indústrias de alimentos e um jornal que é contra o governo, desse modo podemos observar como a família é diferente do restante do contexto da Nigéria, eles são ricos, muito ricos, esbanjam dinheiro, a primeira coisa que você pensa quando vem Nigéria em mente, é a pobreza, certo? Os paradigmas já começam a serem quebrados logo aí, porque ter essa ideia fechada sobre a Nigéria é um modo de pensar preconceituoso também! Papa teve uma infância difícil e foi educado por missionários brancos e que pregam a religião branca, ele se tornou um homem que nega e até mesmo abomina os deuses considerados por nigerianos, pra você ter ideia, ele não fala com seu pai e restringe a aproximação dos filhos por puro preconceito, já que seu pai é um pagão. Como se não bastasse Papa bate com frequência em sua esposa, ela perdeu seus bebês tantas vezes por apanhar, que parei de contar os abortos no decorrer do livro, isso é triste demais.

Tanto Kambili quanto seu irmão são constantemente castigados, qualquer coisa que leve seu pai a desconfiar que eles estão pecando, é motivo para castigos, principalmente físicos, eles apanham até por não serem os melhores alunos de sua sala, o segundo lugar é inaceitável. 


As coisas melhoram quando sua tia resolve levar ela e Jaja para passar uns dia com ela, Kambili começa a observar os primos e se atenta aos comportamentos, ali ela começa a entender o que é ser uma adolescente de verdade, acredito que seja nesse momento que tanto ela quanto seu irmão começam a criar um tipo de independência, pois até aquele momento era seu pai quem controlava até as roupas que eles vestiam.


Eu sofri do início ao fim, foi muito triste ver Eugene, o Papa de Kambili negando os costumes de sua terra e se rendendo a uma religião eurocentrada, ele sentia nojo dos costumes religiosos da Nigéria. Eu senti um aperto no peito cada vez que Kambili descobria uma simples coisa nova, como usar bermuda, batom, tudo isso em sua casa era proibido, já o seu irmão... Ele se tornou um grande homem no decorrer da história, foi um dos personagens que mais vi amadurecer. A mãe de Kambili é a típica mulher submissa que não tem voz porque seu marido é bondoso demais para a igreja, mas fique atento, ela vai te surpreender no final da trama e te fazer vibrar!


A tia de Kambili apareceu como um anjo, professora universitária, militante e sem medo de bater de frente com o irmão, ela mostrou para a sobrinha que tudo bem ser adolescente, que tudo bem ser vaidosa e que é possível ser feliz apesar da pobreza.


O livro tem uma carga emocional muito forte e quando eu achei que já estava tudo bem e não podia mais sofrer, Chimamanda deu a cartada final, por mais que Eugene seja uma pessoa doente, eu terminei a leitura sentindo pena e chorando por ele, querendo ajudá-lo, já com o restante da família... Meu coração ficou imensamente grato pelos rumos tomados.


Essa é uma leitura mais do que necessária, que trata do fanatismo religioso, o problema de negar nossas origens e como calar a voz de uma família pode silenciá-la para sempre. Chimamanda surge como um dos grandes nomes da literatura negra a nível mundial e Hibisco Roxo ganhou um lugar carinhoso em meu coração.

“A rebeldia de Jaja era como os hibiscos roxos experimentais de tia Ifeoma: rara, com o cheiro suave da liberdade, uma liberdade diferente daquela que a multidão, brandindo folhas verdes, pediu na Government Square após o golpe. Liberdade para ser, para fazer.


Título: Hibisco Roxo
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Nº de Páginas: 328
Sinopse: "Protagonista e narradora de Hibisco roxo, a adolescente Kambili mostra como a religiosidade extremamente “branca” e católica de seu pai, Eugene, famoso industrial nigeriano, inferniza e destrói lentamente a vida de toda a família. O pavor de Eugene às tradições primitivas do povo nigeriano é tamanho que ele chega a rejeitar o pai, contador de histórias encantador, e a irmã, professora universitária esclarecida, temendo o inferno. Mas, apesar de sua clara violência e opressão, Eugene é benfeitor dos pobres e, estranhamente, apoia o jornal mais progressista do país. Durante uma temporada na casa de sua tia, Kambili acaba se apaixonando por um padre que é obrigado a deixar a Nigéria, por falta de segurança e de perspectiva de futuro. Enquanto narra as aventuras e desventuras de Kambili e de sua família, o romance que mistura autobiografia e ficção, também apresenta um retrato contundente e original da Nigéria atual, traçando de forma sensível e surpreendente, um panorama social, político e religioso, mostrando os remanescentes invasivos da colonização tanto no próprio país, como, certamente, também no resto do continente."
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