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RESENHA As regras do amor e da magia

23 de maio de 2019


 A história se inicia quando conhecemos Susanna Owens, que mora em Nova York com seus três filhos: Franny, Jet e Vincent. Essas crianças sempre foram escondidas do mundo em todos os âmbitos, não brincavam com as outras crianças, pouca interação social, basicamente não podiam sair de casa ou fazer qualquer coisa sem autorização. Susanna sempre argumentou para seus filhos que aquilo era pura proteção, mas ficava claro que havia algo mais, há uma herança mágica que corre nas veias de cada um deles. As proibições feitas por ela deixam claro como há algo estranho em seus filhos, não devem ler determinados livros, acender velas ou lidar com tabuleiro Ouija, mas acima de tudo, em hipótese alguma devem se apaixonar, isso é terminantemente proibido!




 Mas como sabemos bem, o perigoso é divertido, os jovens começam a questionar as interdições da mãe, em uma situação adversa são convidados a passar as férias na casa da tia distante Isabelle  e logo descobrem que possuem poderes, há uma maldição que ronda a família Owens desde 1620, época em que Maria Owens é acusada de bruxaria após se apaixonar por um inquisidor e lança uma maldição, onde qualquer um que se apaixonar por mulheres dessa família irá morrer.
 O livro todo é um caminho de descobertas, esses jovens precisam rapidamente amadurecer para lidar com a situação com a seriedade que ela exige, precisam encontrar um modo de acabar com a maldição que permeia a família e aprender a lidar com as incumbências que os poderes lhe proporcionam.
 Essa obra foi o presente de boas vindas da editora para os parceiros de 2019, fomos parceiros da editora Jangada e sempre confiei muito nas dicas e títulos enviados por eles, dessa vez não foi diferente. Geralmente quem se disponibiliza a ler os títulos mais fantasiosos são Isabela e Thais, mas dessa vez resolvi arriscar e me diverti demais! A escrita da autora é maravilhosa, tudo é muito bem descrito, sem exageros, você consegue sentir o aroma até do jardim da tia Isabelle. Os personagens são totalmente diferentes uns dos outros, e de certo modo essa jogada funciona demais, pois eles acabam se completando. O amadurecimento também é algo notável na obra, de início você vê jovens perdidos, satisfeitos apenas em contrariar a mãe, mas conforme a narrativa avança, pode-se notar como se tornam pessoas centradas em seus objetivos, isso é lindo.



"Sei que a nossa mãe quer que a gente finja que somos iguais a todo mundo, mas você sabe que não somos."


O enredo é uma verdadeira corrida contra forças muito maiores que os jovens, se eles pretendem se permitir amar e viver isso como “jovens normais” eles precisam encontrar um modo de quebrar essa maldição, mas até ontem eles nem sabiam sobre o passado da família, como lidar com tantas informações?
 A história é narrada em terceira pessoa, o que possibilita mais imparcialidade, você não é inclinado a gostar de ninguém, gosta dos personagens porque eles são bem trabalhados e aprofundados, porque são estruturalmente fortes e interessantes, para mim essa foi a característica mais importante da obra. Além disso, a escrita da autora tem um ar todo mágico, parece que você está lendo um conto fantástico ou algo do gênero, literalmente te transporta da realidade. Uma leitura que vale a pena se você quer sair da zona de conforto e acompanhar a jornada de amadurecimento de jovens em prol de sua família e de suas particularidades.





Título: As regras do amor e da magia
Autora: Alice Hoffman
Editora: Jangada
Nº de Páginas: 368
Sinopse: "Em 1620, depois de ser acusada de bruxaria por amar um inquisidor, Maria Owens lança uma maldição em todas as gerações de mulheres de sua família: qualquer homem que se apaixonasse por elas estaria condenado à morte. Mais de trezentos anos depois, Susanna Owens mora na cidade de Nova York, com os três filhos adolescentes - a temperamental Franny, a doce Jet e o carismático Vincent -, e faz de tudo para protegê-los, escondendo o passado da família e criando algumas regras: é proibido andar ao luar, usar o tabuleiro Ouija, acender velas, criar gatos e corvos ou ler livros de magia. E o mais importante: é proibido se apaixonar! Mas não demora muito para que os irmãos comecem a descobrir seus poderes sobrenaturais e, junto com eles, os segredos e a maldição que assombra sua família. Agora, precisam buscar uma forma de violar as leis da magia sem sucumbir à maldição de Maria Owens. As Regras do Amor e da Magia é uma história que antecede o clássico cult Da Magia à Sedução, resgatando a história da família Owens e personagens já conhecidos. Um livro sobre magia, coragem e o desafio de aceitar a si mesmo para viver o verdadeiro amor."*Exemplar cedido em parceria com a editora.



RESENHA International Guy: Milão, San Francisco, Montreal

20 de maio de 2019


Contém Spoiler.

Oi pessoal, aqui é a Thais e venho trazer mais uma dica de leitura para vocês. Antes de mais nada um aviso, para quem ainda não leu o primeiro livro da série e não gosta de spoilers, recomendo que não continue lendo essa resenha porque pode pegar alguns. A primeira vez que li um livro da Audrey Carlan foi por uma indicação de uma amiga, ela tinha acabado de comprar os primeiros volumes de “A garota do calendário” e queria alguém com quem discutir a respeito, então basicamente empurrou os livros pra cima de mim para que pudéssemos conversar sobre. Confesso que fiquei meio receosa no começo, porque nem todos os meus contatos com literatura hot foram bons, mas a autora conseguiu me surpreender, tanto que li os quatro primeiros livros em... quatro dias kkk Mas ela me surpreendeu muito mais com a International Guy, porque gostei da pegada que ela adotou nesse livro. Pude rir em alguns momentos, me divertir, até aprendi uma coisinha ou outra, assim como também pude viajar bastante com eles. Eles realmente sabem o que fazem.


Esse segundo volume já se inicia com uma bomba, mas, com Parker sendo... Bom, o Parker, pra tudo arruma-se um jeito, pelo menos por um tempo... Ao contrário do livro anterior, as coisas começam a ficar um pouco mais tensas para Parker e o pessoal da International Guy, com direito a escândalos, corações partidos e fortes baques pessoais na vida do grupo. Nessa obra a primeira parada é em Milão, onde uma agência de modelos contrata a empresa para ajudar um grupo de jovens mulheres a explorarem seu lado sensual para desfilarem de lingeries. O proposito é expor peças para mulheres de todas as formas e tamanhos, e para isso, Parker, acompanhado de Bo, o Mago dos Amor, precisam ensinar as modelos a se sentirem a vontade consigo mesmas, com seus corpos, a seduzirem a câmera e o público para campanhas publicitarias. O que mais gostei nessa parte é que são mulheres que não são realmente modelos, nenhuma delas desfilou antes e de certo modo, são mulheres mais reais, porque são mães, professoras, garçonetes, realmente representando mulheres em todas as formas e tamanhos, com seus medos e inseguranças em relação ao corpo. E eu simplesmente fiquei encantada com a forma carinhosa, atenciosa e principalmente, respeitosa com que Bo e Parker tratam elas, e não apenas porque esse é o trabalho deles, mas porque se preocupam com isso. Até porque esse é justamente o propósito do trabalho deles, fazer com que toda mulher se veja como a joia que é. Eles entendem o que elas precisam e ajudam elas a se soltarem, a olharem para si mesmas com mais confiança. E sinceramente, essa própria pegada da obra, voltada em parte para essa questão do publico feminino, foi o que mais despertou meu interesse pelo livro.

De volta aos Estados Unidos, a segunda parada é em São Francisco, onde Parker, junto de Royce, o Mago do Dinheiro, vão atender Rochelle Renner, uma executiva de sucesso sem sorte no amor (pelo menos aparentemente). Ela é linda, inteligente, confiante, bem sucedida e tem muito dinheiro, só não tem um homem legal com quem compartilhar tudo isso, ou pelo menos ela acha que não tem. Uma das coisas que ficam evidentes logo de início é a grande atração entre Royce e a nova cliente (tem bastante fogo no ar). No entanto, Parker fica preocupado com o amigo, porque sabe que o interesse dele na relação é mais sério e não consegue ver um futuro para Royce e Rochelle, e isso gera uma pequena tensão entre os dois amigos e opiniões bem diferentes a respeito do que está acontecendo. Porém, as coisas tomam um outro rumo quando descobrem que há um pretendente número um na lista de homens para a vida dela (embora Rochelle seja bem ignorante a esse fato), e que talvez não precisem ir muito longe para fazer sua cliente encontrar o homem ideal. Só precisam fazer com que ela abra os olhos.
“A questão nem sempre é ver o que está bem na frente do seu nariz, apesar de isso ter sido muito importante no seu caso. Às vezes essa parte pode ser resolvida abrindo os olhos.”


A última parada é em Montreal, no Canadá, onde a International Guy vai em peso, com direito a Parker, Bo, Royce e a louca e inigualável Wendy, para cuidar de um caso de espionagem industrial na área tecnológica. A CEO Alexis Stanton sabe que há alguém sabotando sua empresa, vendendo informações e corrompendo arquivos, só ainda não conseguiu descobrir quem é e vai precisar da ajuda de toda a equipe para descobrir. Parker, arrasado depois de uma possível traição, precisa de toda força e apoio para se concentrar no trabalho, e isso inclui resistir a uma sexy CEO que já deixou bem evidente que suas intenções com ele são mais do que apenas profissionais. Mas isso é apenas parte das inúmeras reviravoltas que a equipe tem que enfrentar, principalmente Parker. 

Eu ainda estou me recuperando dessa leitura, que posso dizer que me deixou com o coração um pouquinho na mão com devido alguns acontecimentos. Eu sinceramente sou um pouco dividida em relação ao Parker, fiquei um pouco apaixonada por ele para falar a verdade, o que parece bem típico, já que ele além de bonito, é charmoso, divertido, inteligente e convenhamos, muito sexy. O que também posso ressaltar que acho que é uma qualidade que todos os três homens da IG possuem. Mas ele também tem seus momentos de comportamento idiota, do tipo que você sente vontade de mandar ele tomar vergonha na cara e usar a cabeça, mas em certo ponto eu também consigo entender as ações dele, o porque dele agir como age. Ele também mostrou uma faceta diferente nesse livro, deixando de lado aquele cara mais conquistador para a realidade de um homem mais apaixonado. 

Gosto também da relação que ele, o Royce e o Bogart tem, essa relação de irmãos, é uma coisa que eu acho muito linda, de sempre se apoiarem em tudo, de acima dos negócios, colocarem a família. Também é uma relação divertida que conseguiu me arrancar alguns sorrisos. E não posso deixar de falar do membro feminino do grupo, até porque eu simplesmente ADORO a Wendy, acho que ela e a Sophie (a doce francesa que estava no livro anterior) meio que batem competição pelo meu favoritismo. Não curto o relacionamento dela com o tal Michael, mas acho essa “abusada” incrivelmente foda e acho fofa a relação que ela passou a ter com os caras, como se eles a tivessem adotado como uma irmã caçula. Acho que esse é um dos pontos mais legais, para falar a verdade, ver o desenvolvimento da relação desse grupo. Diferente do volume anterior, a autora também abriu mais espaço para o relacionamento de Parker e Skyler, que passou a ser uma coisa mais séria, cheia de altos e baixos e com o que parece ser uma gama infinita de obstáculos, o que pode ser encontrado em muitos relacionamentos. Sinceramente, eles como casal, não sei explicar porque, ainda não foi uma coisa que me prendeu, mas acho que vou esperar pelos outros volumes para ver como tudo se desenrola e se minha opinião a esse respeito muda. 

De modo geral, não foi uma das minhas leituras favoritas, mas foi uma que gostei de fazer, acho que conseguiu desfazer muitas más impressões que tive com algumas outras leituras do gênero. Talvez tenha ajudado eu já estar um pouco familiarizada com a escrita da autora, que eu acho muito gostosa e fácil de ler, de mergulhar. A edição, como muitas outras da Verus, também é ótima, o que ajuda bastante, porque eu sou uma pessoa muito influenciada pelas capas dos livros. Cada final dos livros parece um final, mas não é um final. Acho que fica parecendo isso porque eles meio que são três livros em um, mas acho isso uma coisa legal também. Ver eles trabalhando com diversas mulheres, de diversos locais, desde a mais tímida que precisa se soltar até a mais impetuosa que só precisa de auxílio, forma um belo contraste de variedades interessantes dentro do próprio livro. Acho que tudo que posso fazer agora é esperar pelas três próximas paradas e pelos próximos abalos que a International Guy vai causar. Ou que vai ser causado a eles. 


Título: International Guy – Milão, San Francisco, Montreal
Autora: Audrey Carlan
Editora: Verus
N° de Páginas: 416
Sinopse:
“Mesma autora da série A Garota do Calendário, que vendeu mais de 670 mil exemplares no Brasil. International Guy é a agência de Parker Ellis, um dos maiores especialistas do mundo em vida e amor, que tem como missão ajudar as mulheres em questões tão diversas quanto se sentir sexy e poderosas, aprender a administrar um império empresarial ou conquistar o homem dos seus sonhos. Parker e seus dois sócios atendem mulheres ricas do mundo todo, como atrizes de Hollywood, membros da realeza e CEOs de multinacionais bilionárias. E, às vezes, eles não podem evitar que as coisas esquentem e vão parar na cama de suas clientes. Literalmente. Parker adora sua vida de playboy e não está procurando compromisso. Afinal, há um mundo inteiro à sua frente: os negócios o levam de Paris a Milão, de Berlim ao Rio de Janeiro. Mas, conforme ele pula de cidade em cidade ― e de cama em cama ―, é possível que acabe encontrando mais que sexo ao longo do caminho... No segundo volume da série, o trabalho começa em Milão, onde os executivos vão ajudar mulheres comuns a descobrir a arte da sedução. O próximo compromisso é com uma empresária de San Francisco em busca de um parceiro. A terceira cliente, uma CEO de Montreal, desconfia de que há um espião em sua equipe ― e faz uma proposta tentadora a Parker, abalado após uma traição.

RESENHA Your Name

15 de maio de 2019


Oi, aqui é a Isa, vocês acreditam em fado/destino? Tomara que sim, pois é sobre isso que falaremos hoje. Muitos devem conhecer o anime Your Name disponível na Netflix por um tempo, atualmente não está mais na plataforma, ou pelo mangá. No entanto, a versão que falarei nesta resenha é a light novel, ou seja, a versão em romance do anime e do mangá. A história é basicamente a mesma do anime e do mangá apenas com algumas informações que não tem em um e tem no outro, vejo essa light novel como um apanhado tanto do filme quanto do mangá, o combo para qualquer amante de boas histórias.


Inicialmente somos apresentados a dois personagens, Mitsuha e Taki, jovens que vivem vidas extremamente diferentes, ela vive em um vilarejo chamado Itomore, um lugarzinho pacato e cheio de tradições, ele vive em Tókio, a cidade que nunca dorme, no entanto ambos começam a ter experiências de troca corpórea, um começa a acordar no corpo do outro e viver sua vida, mas ambos acham que são sonhos muito vividos. Eles moram em cidades distantes uma da outra, nunca se viram, mas essa troca de corpos acontece mostrando como a força do destino é enorme e consegue juntar pessoas que nem se conheciam, nunca tinham se visto, pessoas que vivem em mudos completamente diferentes. Para nós leitores e espectadores essa situação é muito fácil de compreender, pois podemos ver acontecendo na prática, mas para os protagonistas não, eles não ideia dos motivos que fazem isso acontecer, se sente perdidos e muitas vezes se questionam sobre sua sanidade mental, afinal, como uma situação dessas pode ser humanamente possível?
“Não importa em qual lugar do mundo você esteja, eu prometo que vou te encontrar mais uma vez.” 
Com todas as mudanças de corpo as personagens começam a criar um vínculo, uma conexão, que vai ficando cada vez mais forte, até o momento em que Taki decide pesquisar sobre a cidade de Mitsuha e descobre que a situação é bem mais grave do que se imaginava, além da barreira física ele descobre que também há a barreira do tempo, eles vivem em épocas diferentes. A partir dessa descoberta tem-se a oportunidade de salvar uma cidade inteira, mas será possível?



Your name é uma história muito fofinha e gostosinha de ler, se vocês preferem romances leiam o livro, pois ele mostra de uma forma melhor todo esse envolvimento das personagens, como esta conexão é estabelecida e tudo mais. Agora se você quer uma ideia mais ampla e com mais informações sobre a história eu recomendo que vocês vejam o anime, leiam o mangá e o livro, pois de certa forma eles acrescentam mais informações para o enredo. Em todo caso, a história é muito tocante, você vê o amor nascendo entre dois jovens de maneira bastante genuína, além disso, a carga emocional a partir de determinado momento fica super densa e você fica apreensivo pelo final, que não é nada diferente do filme. Para uma primeira experiência essa foi uma leitura bastante agradável e que me comoveu bastante, atendeu a todas as minhas expectativas e abriu caminho para leituras futuras do mesmo nicho.




Título: Your Name
Autor: Makoto Shinkai
Editora: Verus
Nº de Páginas: 192
Sinopse: "Mitsuha é uma estudante que vive em uma pequena cidade nas montanhas. Apesar de sua vida tranquila, ela sempre se sentiu atraída pelo cotidiano das grandes cidades. Um dia, Mitsuha tem um sonho estranho em que se torna um garoto. No sonho, ela acorda em um quarto que não é dela, tem amigos que nunca viu e passeia por Tóquio. E assim aproveita ao máximo seu dia na cidade grande, onde ela adoraria viver. Curiosamente, um estudante chamado Taki, que mora em Tóquio, também tem um sonho estranho: ele é uma garota que mora em uma cidadezinha nas montanhas. Qual é o segredo por trás desses sonhos tão vívidos? Assim começa a fascinante história de dois jovens cujos caminhos nunca deveriam ter se cruzado. Compartilhando corpos, relacionamentos e vidas, eles se tornam inextricavelmente ligados ― mas há conexões verdadeiramente indestrutíveis na grande tapeçaria do destino?"
*Exemplar cedido em parceria com a editora.

Literatura para enegrecer e empoderar

6 de maio de 2019


Esse ano nós somos parceiros da SESI-SP Editora, e não há prazer maior do que poder compartilhar o olhar sobre uma literatura tão bem produzida, o nosso primeiro pacotinho veio recheado de amor e representatividade. Luana, que cuida das parcerias teve o carinho de me mostrar essas edições maravilhosas e me enviar, porque sabia da minha alegria em receber essas duas obras. A experiência de leitura foi enriquecedora para a caminhada porque entendi como o descobrimento e o entendimento sobre questões raciais são processos, nem sempre fáceis, mas sempre repletos de muita reflexão.


O primeiro livro recebido foi Quando me descobri Negra, da Bianca Santana, eu não conhecia a obra e quando recebi meu coração ficou quentinho, o cuidado com a edição é algo que poucas vezes vi na vida, desde a capa cheia de representatividade, até as folhas, o formato e as ilustrações que carregam uma ancestralidade capaz de nos proporcionar uma força além do esperado. A obra é curtinha, do tipo que você lê em uma sentada mas eu preferi ler aos pouquinhos, um texto por dia, porque sabia que é o tipo de obra para se degustar. Mastiguei cada texto aos pouquinhos e absorvi tudo o que podia. São textos que refletem a realidade do negro no Brasil, seja no ambiente acadêmico ou em uma simples situação cotidiana, Bianca vai destilando todo o ardor que é ser negro, sem nunca deixar-se de mostrar orgulhosa por ser quem é. Esse é um livro empoderador e que eu adoraria ter lido quando adolescente, passar pelo processo de transição e de reconhecimento enquanto pessoa negra não é nada fácil, é um mundo perdido e que você precisa desbravar muitas vezes sozinha, mas agora sei que existem autores como Bianca, prontos para te mostrar o caminho, colocar o dedo na ferida e demonstrar que o problema não é você, o seu cabelo, o estereótipo, o problema são os outros, o racismo estrutural e tudo o que nos acomete. Essa é uma obra que recomendo e que definitivamente irei presentear minhas amigas, Bianca me deu um abraço de irmã, recheado por ancestralidade e a certeza de que não estamos sozinhas.


A segunda obra que recebi foi O diário de Bitita, escrito por Carolina de Jesus, a minha primeira experiência com a autora foi lendo Quarto do despejo, obra essa que nunca tive coragem de resenhar por aqui de tanto que me marcou. Sabe quando você encontra o livro da sua vida e sente que nenhum elogio será suficiente? É isso que acontece com Quarto do despejo, assim que comecei a ler O diário de Bitita percebi como eu queria que esse livro em especial fosse a minha primeira experiência com a autora, para entender muito do que Carolina foi em Quarto do despejo, é preciso ler Diário de Bitita, sabe por que? O livro foi publicado primeiro na França e depois no Brasil, é um relato autobiográfico um pouco mais intimo que Quarto do despejo pois a autora fala intimamente de sua vida desde a infância, até os tempos para além de suas outras obras, vamos conhecer aqui Bitita, a menina chorona e que ninguém aguentava por perto, a criança que queria ser homem pois assim seria respeitada, a adolescente audaciosa e que demorou a entender porque ser negro é sofrer duas vezes. Carolina quando pequena, achava que seu nome era Bitita, quando descobriu que não era, percebeu que se abriu para um novo mundo.
“Quando havia um conflito, quem ia preso era o negro. E muitas vezes o negro estava apenas olhando.”

Sempre observadora e sem medo de questionar, vamos encontrar aqui um relato sincero e sem meias palavras, percebe-se que a intenção da autora não era agradar, não era falar sobre racismo e muito menos diminuir a culpa das pessoas que passaram por sua vida. Carolina quis contar a sua história e ponto, isso basta, é forte e poderoso. Eu me apaixonei por esse livro desde suas notas iniciais, sobre a demora da publicação, os motivos e o fim de Carolina, até a última página, tudo foi muito especial. Carolina não era uma criança como as outras, ela não era somente curiosa, era única, já pequena era questionadora, tentava se impor, e o tempo todo observava as coisas ao seu redor, sempre tentando entender as injustiças do mundo. Essa obra é uma descrição crua e verdadeira de uma autora que infelizmente morreu do mesmo modo que se tornou famosa, na miséria. Carolina não teve o reconhecimento que merecia na época e muito me alegra que a editora SESI-SP tenha se atentado para a necessidade dessa obra. É necessário ler absolutamente tudo dessa autora para entender a condição do negro no Brasil, como o racismo abala até mesmo a nossa saúde mental e para além disso, questionarmo-nos porque a literariedade de uma mulher tão necessária ao mundo, por muito tempo foi ignorada.


Essas são duas obras que eu inquestionavelmente indico para toda e qualquer pessoa que queira uma leitura que mexa com o coração e a mente, ler ambas as autoras é questionar o seu lugar o mundo e a forma que você o ocupa. Leia Bianca, leia Carolina, mas acima de tudo, permita que outras delas floresçam e resistam em tempos tão sombrios como esse. 


Título: Quando me descobri negra
Autora: Bianca Santana
Editora: SESI-SP
Nº de Páginas: 96
Sinopse: "'Quando me descobri negra fala com sutileza e firmeza de um processo de descoberta inicialmente doloroso e depois libertador. Bianca Santana, através da experiência de si, consegue desvelar um processo contínuo de rompimento de imposições sobre a negritude, de desconstrução de muros colocados à força que impedem um olhar positivo sobre si. Caminhos que aos poucos revelam novas camadas, de um ser ressignificado. Considero este livro um presente, é algo para se ter sempre às mãos e ir sendo revisitado. Bianca, ao falar de si, fala de nós.'' - Djamila Ribeiro.
 
Título: Diário de Bitita
Autora: Carolina Maria de Jesus
Editora: SESI- SP
Nº de Páginas: 208
Sinopse: Um romance muito forte, com imagens muito trabalhadas, sobre a vida no negro no início do séc. XX. As primeiras escolas surgiam, e o racismo estava impregnado naquela cultura de uma forma mais explicita que hoje: “No ano de 1925, as escolas admitiam alunas negras. Mas quando as alunas negras voltavam das escolas, estavam chorando. Dizendo que não queriam voltar à escola porque os brancos falavam que os negros eram fedidos.”*Obras cedidas em parceria com a editora.

RESENHA Sorrisos Quebrados

22 de abril de 2019

Hoje a resenha vem em tom bastante sentimental, Sorrisos Quebrados é uma obra que eu namorei por muito tempo e estava só esperando por uma boa promoção para poder adquirir, assim que chegou já deixei que a obra furasse a fila e foi a melhor decisão que eu poderia tomar, li a história em um dia e me emocionei muito, Sorrisos Quebrados de certa forma acaba trazendo uma bela história sobre se permitir para o amor, depois de tudo, e além do mais nos alerta sobre relacionamento abusivo e violência doméstica.
"Não existe nada pior do que tentar salvar alguém e terminar soterrado."
Paola viveu um relacionamento absurdamente abusivo, para qualquer pessoa de fora, tudo parecia lindo, ela e seu marido aparentavam ser um casal bastante feliz e com planos lindos, mas sozinhos a coisa mudava de figura, ela apanhava de seu marido e vivia com medo, morava em um verdadeiro inferno e lidar com o seu companheiro era como pisar em ovos, não era possível saber quando viria a próxima surra. Cansada disso, Paola resolve ir embora desse casamento e paga o preço mais alto, o casamento acaba, mas sua vida também, não irei contar aqui o que realmente aconteceu porque acredito que irá atrapalhar a experiência de leitura de vocês, mas o que posso dizer é que Paola fica com marcas visíveis por todo o corpo, é como se ela tivesse sido destruída não só mentalmente como fisicamente, depois disso ela resolve se estabelecer em uma clínica não só para fugir do mundo como também para tentar ficar bem, após um trauma tão grande. Ela vive feliz da melhor maneira que pode, bastante isolada de todos e tenta passar o tempo pintando, porque é isso que lhe deixa bem. Afinal, após o relacionamento absurdamente agressivo e a experiência traumatizante, Paola não tem a intenção de voltar a se relacionar com nenhum homem porque o que jurou lhe amar, quase a matou, mas tudo muda de figura quando rapaz surge do nada, invadindo o seu espaço enquanto ela pinta, e Paola simplesmente desmaia, por medo de um homem tão grande machucá-la novamente.


André é voluntário na clínica que Paola mora mas ele nunca a viu porque a moça reside em uma área mais afastada(justamente pela sua intenção de se afastar de todos), até que algo chama a atenção do rapaz e ele fica hipnotizado por ver aquela mulher consumindo a arte ao extremo, ele só não esperava que a reação dela fosse tão estranha, um desmaio, a partir disso, tanto André quanto Paola vão reconsiderar os seus caminhos, enfrentar seus empecilhos e quem sabe, se permitir amar novamente.

A real é que eu não esperava que Sorrisos Quebrados fosse um livro tão forte, logo nas primeiras páginas eu já me via chorando, pensando em como um relacionamento mina qualquer autonomia feminina e faz parecer que não há mais saída, me emocionei demais com as cenas de violência porque a autora foi bastante real e crua nessas descrições, foi doloroso porque me senti impotente. Após esse episódio Paola decide se afastar de todos e viver isolada em uma clínica, pintando e mais nada, ela se sente segura nesse ambiente até encontrar André. Eu realmente entendo o medo dela, ele é um homem imenso fisicamente do tipo que você vê e não imagina que seja muito delicado, mas isso logo muda de figura quando você passa a conhecê-lo melhor, ele é um homem bastante doce e apaixonado pela sua filha Sol, ela é uma garotinha que apesar da pouca idade já sofreu muito na vida e também carrega seus traumas, não consegue ter amigos por conta das suas condições também, sente medo de tudo mas com Paola… Ela desabrocha feito uma flor, é aí que a autora me pegou de jeito! Esse amor todo entre Paola e André não seria possível se não fosse por Sol, ela é uma garota doce, bastante inteligente e que é colocada como o elo de ligação entre os dois, é por Sol que André vive e faz tudo, é por Sol que Paola se permite recomeçar também.

Como Sol faz acompanhamento na mesma clínica que a protagonista, depois que as duas passam a se conhecer, a amizade e os encontros se tornam mais frequentes, consequentemente André passa a ver Paola também e a atração logo surge. Paola não é o padrão de protagonista esperado, ela passou por situações adversas e que mexeram com sua auto estima porque seu físico foi abalado, metade do rosto dela foi destruído, as cicatrizes não são nada bonitas, mas André não parece se importar com isso, ele só vê a mulher que é bondosa com sua filha, que não mede esforços para agradar sua pequena, para André, Paola é a beleza em vida, ele só precisa fazer com que ela acredite nisso também. É óbvio que depois de tudo, Paola não quer repetir os erros e nem voltar a amar, a última vez que ela se entregou para alguém ela quase morreu, isso não vai acontecer novamente, mas André parece um pai tão bom, um homem tão amável e protetor Por que não se permitir ser feliz de verdade?


Como esse é um livro bastante curto, quando as coisas começam a acontecer, tudo logo ganha grandes proporções e sinceramente eu amo isso, nada de enrolação, tudo muito direto ao ponto, sendo assim, o que começa com um beijo logo se torna uma faísca, tanto André quanto Paola colocam na cabeça que será só algo carnal, porque ambos já se machucaram demais e não precisam sofrer por amor outra vez, cá entre nós, quem acredita nisso? São dois protagonistas muito machucados pela vida, que não mereciam nada do que aconteceu em seus caminhos mas que se tornaram sobreviventes, os dois carregam uma carga emocional que pesa o coração e a leitura, mas que torna bastante claro como são merecedores de um amor de verdade, que os coloquem em primeiro plano e que façam ver como amar pode ser bom. A relação entre eles vai acontecendo, muitas vezes numa intensidade maravilhosa, mas que fazem os dois sentirem um medo absurdo de como as coisas caminham. Eu me vi irritada em alguns momentos com a postura de Paola, ela fugindo o tempo todo, negando as coisas, mas quem sou eu para julgar? Nunca passei por uma experiência de relacionamento abusivo e muito menos de violência, não posso mensurar como isso fica marcado na mente de uma mulher, todo o seu medo e sua negação são justificáveis por tudo que ela passou, assim como o medo de André em se permitir amar, estava bem claro desde o início que era amor, só faltavam ambos assumirem… Hahaha. Essa foi uma leitura bastante agradável principalmente por Sol, uma garotinha esperta e que acabou ganhando muito espaço na narrativa, além disso, a autora conduz a história de maneira muito dinâmica então você nunca fica entediado ou acha que as coisas acontecem de maneira lenta demais, quando começa, você não dá conta de parar. A capa é bastante condizente com o enredo porque a história em si é permeada por tintas e pinturas lindas, o nome Sorrisos Quebrados é uma metáfora que quando finalmente entendi o significado me quebrou de jeito, essa é uma história forte, sobre uma mulher sobrevivente e que precisa restaurar o seu amor por si mesma para poder voltar a confiar no mundo. Um livro doce, apaixonante e muito tocante, a recomendação é mais do que obrigatória porque acredito que seja uma obra que todos no mundo deveriam ler.






Título: Sorrisos Quebrados
Autora: Sofia Silva
Editora: Valentina
Nº de Páginas: 232
Sinopse: "Sorrisos Quebrados gira em torno de três personagens: a jovem Paola, a pequena Sol e seu pai, André. Os três são vítimas de violências distintas, que deixaram marcas profundas em cada um. Trata-se de uma história de superação de dores, magia, estrelas e de como importantes laços humanos podem se formar a partir da autoaceitação, da arte e da tolerância no cotidiano."
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