Uma dose biográfica de Bukowski - Por Wagner Hertzog

sábado, 23 de julho de 2016
Charles Bukowski foi um dos grandes ícones literários americanos do século 20. Nascido Heinrich Karl Bukowski em Andernach, na Alemanha, ele mudou-se com os seus pais para os Estados Unidos, quando era apenas uma criança. Muito precocemente, o jovem Bukowski foi obrigado a aprender a partir das dolorosas dificuldades e deprimentes demandas da vida. Um caso severo de acne em sua adolescência tornou-o repulsivo para as garotas, e o tímido e introvertido Bukowski, como resultado, tornou-se um rapaz ainda mais retraído e fechado. Em sua juventude, ele descarregava suas amarguras no álcool, para anestesiar a rejeição social crônica e as dores gerais da existência. Tendo manifestado muito cedo suas tendências literárias, seu pai, uma figura abusiva, agressiva e autoritária, rasgava os seus manuscritos, e fazia tudo o que era possível para manter o seu filho longe da escrita. Esse terrível tratamento por parte do pai deixou marcas profundas e duradouras no jovem Bukowski, e tiveram um papel fundamental na formação de sua cínica, sarcástica, pessimista e desiludida postura com relação à vida.
Bukowski foi capaz de vender relativamente cedo sua primeira história para uma revista – ele tinha apenas vinte e quatro anos de idade quando realizou esse feito – e conseguiu vender mais algumas nos anos que se seguiram. Não obstante, as dificuldades do mercado literário logo exasperaram o jovem Bukoswski, que foi ficando progressivamente cada vez mais desiludido com relação ao seu sonho de tornar-se escritor, e, por quase uma década, ele parou de escrever. Para se sustentar, ele executou todo os tipos de trabalhos e ofícios, sendo que este período de sua vida está particularmente muito bem descrito – em versões fictícias, é claro – em romances autobiográficos, como Factotum, publicado em 1975 (que é uma palavra em latim que literalmente significa “Faz tudo”, fazendo referência a um trabalhador que realiza todo e qualquer tipo de trabalho) e Misto Quente (Ham on Rye, 1982), que cobre um período maior de sua vida, da infância à idade adulta.
Embora ele tenha continuado a escrever e a publicar em jornais e revistas independentes, as conquistas de Bukowski neste período de sua vida eram relativamente medíocres, e seus empenhos literários pareciam não estar indo a lugar algum, para sua constante e crescente frustração. Embora tenha levado um certo período de tempo, em 1969, quando Bukowski estava então com 49 anos, tudo mudou, quando uma pequena editora ofereceu a ele a possibilidade de demitir-se de seu trabalho – que era em uma agência dos correios – e tornar-se escritor em tempo integral. Definitivamente exasperado com o seu trabalho, Bukowski aceitou a oferta, pediu demissão, e, pouquíssimo tempo depois, publicou o seu primeiro romance, convenientemente intitulado Post Office (aqui publicado como Cartas na Rua [o que, em uma tradução mais literal, ficaria “Correios” ou “Agência dos Correios”]), publicado em 1971, e, como muitos de seus livros, extremamente autobiográfico. E você com toda a certeza poderia dizer que uma lenda estava nascendo. 
Barfly – Condenados pelo Vício, um filme de 1987 estrelando Mickey Rourke e Faye Dunaway, foi roteirizado por Bukowski, como um trabalho comissionado pelo renomado diretor cinematográfico Barbet Schroeder. Embora ambos tenham tido discórdias menores – Bukowski queria que seu amigo Sean Penn estrelasse no papel principal, e Sean Penn por sua vez queria que o filme fosse dirigido por Dennis Hopper, embora Bukowski  não fosse entregar a Hopper um roteiro solicitado por outro diretor – o filme desenvolveu-se relativamente bem, sem maiores incidentes. Semiautobiográfico, Barfly (que, em tradução livre, significa “mosca de bar”, uma espécie de gíria da época para assíduos beberrões frequentadores de botecos pouco auspiciosos) mostra os altos e baixos de Henry Chinaski – o alter ego de Bukowski em seus trabalhos de ficção – em um estupor alcoólico quase permanente, vagando erroneamente através dos bares decadentes do submundo de L.A., sem saber precisamente que rumo tomar na vida. Bukowski fez uma pequena aparição no filme. Sean Penn e Bukowski permaneceram sendo grandes amigos, até a morte de Bukowski, em 1994. 
Do princípio dos anos 70, até a sua morte, em 9 de março de 1994, aos setenta e três anos, Bukowski foi escritor em tempo integral, tendo escrito centenas de poemas e contos, além de dúzias de artigos, colunas e textos de não-ficção, para jornais e revistas alternativas. Boa parte de seu trabalho publicado em periódicos foi eventualmente reunido, e publicado em livro. Não obstante, hoje ele é mais lembrado por seus seis romances, considerados os seus maiores feitos de sua carreira literária: Cartas na Rua (Post Office, 1971), Factotum (1975), Mulheres (Women, 1978), Misto Quente (Ham on Rye, 1982), Hollywood (1989) e Pulp (1994). Bukowski também trabalhou ocasionalmente como roteirista.
Seus principais temas literários eram mundanos: álcool, sexo, seus relacionamentos complicados com mulheres, os altos e baixos da vida em L.A., o ofício de escrever, as tentativas de ser bem sucedido no meio literário, e, posteriormente, lidar com a fama e a notoriedade. Ele é frequentemente citado como o poeta e filósofo dos marginalizados, pobres, negligenciados e esquecidos, provavelmente porque ele era todas estas coisas, antes que o mundo fosse capaz de reconhecê-lo como um talentoso, prolífico e versátil escritor.


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