RESENHA Hibisco Roxo

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
Título: Hibisco Roxo
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Nº de páginas: 328
Sinopse:Protagonista e narradora de Hibisco roxo, a adolescente Kambili mostra como a religiosidade extremamente “branca” e católica de seu pai, Eugene, famoso industrial nigeriano, inferniza e destrói lentamente a vida de toda a família. O pavor de Eugene às tradições primitivas do povo nigeriano é tamanho que ele chega a rejeitar o pai, contador de histórias encantador, e a irmã, professora universitária esclarecida, temendo o inferno. Mas, apesar de sua clara violência e opressão, Eugene é benfeitor dos pobres e, estranhamente, apoia o jornal mais progressista do país.

Durante uma temporada na casa de sua tia, Kambili acaba se apaixonando por um padre que é obrigado a deixar a Nigéria, por falta de segurança e de perspectiva de futuro. Enquanto narra as aventuras e desventuras de Kambili e de sua família, o romance que mistura autobiografia e ficção, também apresenta um retrato contundente e original da Nigéria atual, traçando de forma sensível e surpreendente, um panorama social, político e religioso, mostrando os remanescentes invasivos da colonização tanto no próprio país, como, certamente, também no resto do continente."



 Quando iniciei o curso de Letras, um dos grandes motivos foi a matéria de literatura, a ideia de estudar sobre livros me deixava animada demais, entender correntes teóricas, o motivo da escrita... Tudo era muito mágico, mas ver isso na prática foi muito melhor! Meu professor nos indicou essa leitura para que pudéssemos analisar personagens e qual a profundidade de cada um, confesso que a ultima coisa que fiz foi isso, eu me prendi a essa história de tal forma que não consigo parar de ler os quotes, retomar a leitura, o mundo de Chimamanda é tão mágico que não quero mais sair dele.
 Kambili é uma adolescente diferente, ela aprendeu a sussurrar antes de falar, a andar de cabeça baixa e desde sempre aprendeu que as decisões de sua vida não são dela e sim de seu pai, que sempre opta pelo caminho que Deus desejar. Ela tem outro irmão JaJa, sempre quieto, na dele, mas que desde o inicio você sente o espírito rebelde do garoto, e obvio que ele paga o preço por essa rebeldia, pois bem, a narradora é Kambili e você vai observar o fanatismo religioso de seu pai pelo olhar dela.
 Essa leitura é pesada demais, sinceramente, O Papa, como é conhecido o pai de Kambili, é um homem rico, dono de várias indústrias de alimentos e um jornal que é contra o governo, desse modo podemos observar como a família é diferente do restante do contexto da Nigéria, eles são ricos, muito ricos, esbanjam dinheiro, a primeira coisa que você pensa quando vem Nigéria em mente, é a pobreza, certo? Os paradigmas já começam a serem quebrados logo aí! Papa teve uma infância difícil e foi educado por missionários brancos e que pregam a religião branca, ele se tornou um homem que nega e até mesmo abomina os deuses considerados por nigerianos, pra você ter ideia, ele não fala com seu pai e restringe a aproximação dos netos por puro preconceito, já que seu pai é um pagão. Como se não bastasse Papa bate com frequência em sua esposa, ela perdeu seus bebês tantas vezes por apanhar, que parei de contar os abortos no decorrer do livro, isso é triste demais.




 Tanto Kambili quanto seu irmão são constantemente castigados, qualquer coisa que leve seu pai a desconfiar que eles estão pecando, é motivo para castigos, principalmente físicos, eles apanham até por não serem os melhores alunos de sua sala, o segundo lugar é inaceitável. 
 As coisas melhoram quando sua tia resolve levar ela e Jaja para passar uns dia com ela, Kambili começa a observar os primos e se atenta aos comportamentos, ali ela começa a entender o que é ser uma adolescente de verdade, acredito que seja nesse momento que tanto ela quanto seu irmão começam a criar um tipo de independência, pois até aquele momento era seu pai quem controlava até as roupas que eles vestiam.
 Eu sofri do início ao fim, foi muito triste ver Eugene, o Papa de Kambili negando os costumes de sua terra e se rendendo a uma religião eurocentrada, ele sentia nojo dos costumes religiosos da Nigéria. Eu senti um aperto no peito cada vez que Kambili descobria uma simples coisa nova, como usar bermuda, batom, tudo isso em sua casa era proibido, já o seu irmão... Ele se tornou um grande homem no decorrer da história, foi um dos personagens que mais vi amadurecer. A mãe de Kambili é a típica mulher submissa que não tem voz porque seu marido é bondoso demais para a igreja, mas fique atento, ela vai te surpreender no final da trama e te fazer vibrar!
 A tia de Kambili apareceu como um anjo, professora universitária, militante e sem medo de bater de frente com o irmão, ela mostrou para a sobrinha que tudo bem ser adolescente, que tudo bem ser vaidosa e que é possível ser feliz apesar da pobreza.
 O livro tem uma carga emocional muito forte e quando eu achei que já estava tudo bem e não podia mais sofrer, Chimamanda deu a cartada final, por mais que Eugene seja uma pessoa doente, eu terminei a leitura sentindo pena e chorando por ele, querendo ajudá-lo, já com o restante da família... Meu coração ficou imensamente grato pelos rumos tomados.
 Essa é uma leitura mais do que necessária, que trata do fanatismo religioso, o problema de negar nossas origens e como calar a voz de uma família pode silencia-la para sempre. Definitivamente fechei minhas leituras de 2017 com chave de ouro. 

"A rebeldia de Jaja era como os hibiscos roxos experimentais de tia Ifeoma: rara, com o cheiro suave da liberdade, uma liberdade diferente daquela que a multidão, brandindo folhas verdes, pediu na Government Square após o golpe. Liberdade para ser, para fazer.



10 comentários:

Milca Abreu disse...

essa capa é linda e o livro parece ser muito bom, fiquei interessada...

Cabine de Leitura disse...

A temática do livro é maravilhosa, ainda mais por essa quebra de paradigmas que mencionou, só pela resenha já pude sentir a carga emocional. Quero muito ler, parece ser uma grande e dolorosa leitura se levarmos em conta que isso tudo é mais real do que imaginamos.


Beijos.
https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

Tamires Marins disse...

Todos os livros da Chimamanda tem um teor dolorido, né? Até mesmo os manifestos feministas. Realmente quando pensamos no país logo lembramos de pobreza e miséria, então a riqueza de Papa realmente é uma característica inesperada. O fanatismo religioso já foi e continua sendo a causa de muitos males na humanidade, acho um tema importante e pela sua resenha dá para perceber que Chimamanda abordou tudo de uma.maneira excelente.
Sobre os abortos, cheguei a me embrulhar aqui... :/

Beijos
- Tami
http://www.meuepilogo.com

Jéssica Christina disse...

Oie, tudo bem?
Esse livro parece ser um verdadeiro tapa na cara, né? Adorei a premissa, acho que é mesmo um assunto que deve ser discutido hoje em dia. A capa é linda, e com certeza a leitura deve ser muito emocionante. Algumas partes da resenha me deixaram agoniada, imagina o livro inteiro.

Greice Blogando Livros disse...

Ai menina, eu te entendo perfeitamente na questão deste livro sobre a carga emocional. Estou lendo um sobre uma família no Afeganistão e também tem esta coisa de punições e por qualquer coisa as mulheres apanham e me dá uma dor no coração saber que existem países assim sabe? E ainda usam o nome de Deus.

Até a última página disse...

Oi,
Já estou mexida e indignada só em ler sua resenha, que dirá o livro! O que é isso? Fanatismo religioso, abortos, limitações, imposições!! Tem tudo o que eu gosto em um livro. Gosto de livros que nos façam enxergar além do nosso umbigo, sabe!? Que mexem com as emoções e nos dão uma visão mais abrangentes do mundo lá fora.
Fiquei encantada com sua resenha e com a história, ainda não consegui ler nada de Chimamanda, infelizmente, mas esse é mais um dos livros dela que entra na minha lista nesse instante. Obrigada pela dica!

Beijos,
Fe
https://ateaultimapagina.wordpress.com/

Ana Paula Medeiros disse...

Oi! Após ler o livro Mulheres Incríveis, conheci um pouco da história de vida da escritora Chimamanda e na época quis começar a ler as obras dela, mas ainda não tive a oportunidade.
Lendo sua resenha descobri porque ela é considerada um sucesso da literatura contemporânea. Essa temática sobre intolerância religiosa é um tema tão atemporal, e necessário em se discutir.
Já tinha visto falar da obra, mas agora lendo a premissa fiquei mais interessada.
Obrigada pela indicação!
Beijos!

Milena Nones disse...

Oi!
Esse livro parece ter fortes emoções. Nunca li uma obra da autora, mas pelo que eu li em sua resenha, ela consegue abordar muito bem todos os temas abordados, por meio de uma narrativa maravilhosa.
Vou anotar sua dica e tentar conferir em breve.
Beijos

Caos Feminino Tv disse...

Oi, tudo bem?
Estou doida por esse livro. Essa temática me deixa muito tocada e tem muito a ver com o que busco. Apesar da carga emocional forte, é importante termos esse tipo de leitura na estante para nunca tirarmos os pés do chão antes que deveríamos. Muitas meninas vivem a mesma história que ela e livros assim ajudam a abrir nossos olhos, a situação ao redor. Ótima resenha, escreve muito bem! Beijos

Licavargas disse...

Tão bom quando uma leitura nos ganha, nos envolve e não nos deixa pensar em nada, nem analisar demais, não é mesmo?
Acho que a autora tem o maior dom com as palavras - já li pequenos textos dela e amei. Tenho a maior vontade de ler esse livro, mas vivo deixando para depois e com isso o tempo vai passando...
espero que consiga encaixar ele em 2018. Não tenho dúvidas de que realmente vai valer a pena...
Beijinhos,
Lica

Postar um comentário

 
© Uma dose de Cacto - janeiro/2016. Todos os direitos reservados.
Criado por: Dear Maidy. Tecnologia do Blogger.
imagem-logo