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RESENHA Orlando

25 de setembro de 2018

Título: Orlando
Autora: Virginia Woolf
Editora: Nova fronteira
Nº de páginas: 200
Sinopse: "A fascinante história de Orlando compreende mais de três séculos. O fato de ter envelhecido não mais que trinta anos ao longo desse período lhe permitiu viver a fantasia de assumir diversos papéis na sociedade inglesa, indo de um jovem membro da aristocracia elisabetana a uma mulher moderna do século XX. Somando experiências nesta jornada através da história, a personagem de Virginia Woolf é livre não apenas das restrições do tempo, mas também das imposições da sexualidade, numa narrativa brilhante que reflete de maneira espirituosa e feminista sobre a natureza dos sexos."
*Exemplar cedido em parceria com a editora.


Essa resenha faz parte do projeto Setembro Amarelo que tem como objetivo promover um debate saudável sobre transtornos mentais, suicídio e maneiras de preveni-lo.

Virginia Woolf segue sendo um dos nomes da literatura devido a sua maestria em produzir obras tão atuais. No início do século passado ela já abordou o tema da mudança de sexo, então imagine só, se hoje é tão difícil falar de transsexualidade e ser aceito, imagine naquela época. Entretanto, o modo como o assunto foi introduzido tem um ar de fantasia, que quebra totalmente a seriedade do tema e até mesmo facilita o debate.

Diferente das outras obras da autora, essa não aborda o fluxo da consciência dos personagens, é um pouco mais difícil entender a subjetividade de cada um deles. A história é narrada com ar de biografia, Orlando sempre foi um homem bastante sensível, sempre fugiu do esteriótipo de masculinidade, um belo dia ele simplesmente acorda no corpo de mulher, sem espanto algum, ele aceita isso com naturalidade. É como se ele pertencesse ao corpo feminino, e o fato de ter mudado abruptamente, não fosse problema algum. A história se inicia na era elisabetana e transpassa mais três séculos, Orlando é imortal.
 
A intenção da autora, é demonstrar a imposição de gêneros, e como essa mudança, mostrou a Orlando as mazelas de ser mulher, por exemplo, ele deixa um pouquinho das pernas a mostra, e um marinheiro cai do navio devido ao espanto, onde já se viu mulher mostrando as pernas? Em outro ponto, Orlando se emociona ao retornar para a Inglaterra, e chora, mas dessa vez chora sem culpa, porque as lágrimas em uma mulher caem bem, em homens isso é algo reprovável. Desse modo, podemos perceber como a discussão proposta por Virginia, é atual, e ainda assim tão longe de uma única opinião.

Vale lembrar que durante toda a vida a autora foi casada mas isso não impediu que ela tivesse relacionamentos com pessoas do mesmo sexo, Orlando é uma homenagem para Vita Sackville West, uma amiga por quem ela se apaixonou. 

Mas porque essa obra faz parte do projeto setembro amarelo? São dois motivos bem simples, primeiro porque a obra aborda de maneira bastante literal, a construção dos gêneros e a transexualidade, e conforme vamos lendo, vamos desconstruindo toda essa ideia do que é masculino e feminino, o que é extremamente necessário. Segundo e não menos importante, Virginia é uma autora suicida, a escrita sempre foi sua válvula de escape, ela conseguia coexistir porque escrevia, seu convívio com a depressão e outros transtornos nunca foi fácil, e de certo modo, a literatura a salvou por muito tempo, infelizmente, em uma crise séria, ela deixou um bilhete para seu marido, encheu os bolsos com pedras, e se atirou em um rio próximo a sua casa, Virginia morreu mas segue imortal, seu talento transpassava seu tempo e a torna presente em dias tão sombrios como esses onde a crise política nos assusta.


A mensagem que fica é: Leia Virginia porque o mundo pede, o mundo precisa, leia para entender a mente de personagens tão complexados e ao mesmo tempo tão sensíveis, leia para entender a mente de uma autora suicida, que viveu por muito tempo porque a literatura lhe dava forças. 

"Para nós é suficiente constatar o simples fato: Orlando foi homem até os trinta anos; nessa ocasião tornou-se mulher e assim permaneceu daí por diante."


Comentários
18 Comentários

18 comentários :

  1. Olá!
    Nossa eu sempre torci o nariz para essa capa, sabe aquele famoso preconceito de escolher livros com capas bonitinhas. Ainda bem que li sua resenha para entender um pouco mais dessa obra. Acho que o fato de ser um pouco autobiográfica nem me incomodaria para realizar a leitura principalmente pela mensagem que a autora conseguiu passar misturando essa fantasia com a realidade. Não consigo mensurar como uma pessoa que passa por esses conflitos internos possa se sentir, e uma pena que chegou ao ponto em que sua válvula de escape não foi mais tão eficaz assim para acalmar seus pensamentos e seu coração.
    Uma dica muito valiosa. Obrigada por me apresentar sua visão dessa leitura.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  2. Tudo bem? Virginia Woolf tem uma escrita que eu curto muito. Já li esse livro e amei demais. A capa não está nada atraente a uma primeira vista, logo percebo a importância de resenhas como a sua, afinal, quem vê capa não vê conteúdo.
    Sua resenha está excelente e mostra bem sobre o enredo sem entregar demais.
    A densidade da leitura e fluidez caminham lado a lado..
    Beijos.

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  3. Olá, tudo bom?
    Até hoje só li Entre os atos da autora, mas já deu para sentir sua genialidade. Adorei saber mais sobre Orlando e sobre a forma como Virgínia abordou o tema da transsexualidade em uma época tão difícil. Se hoje em dia ainda é, como deve ser sido na época, não é mesmo? Outro ponto que adorei saber sobre é essa abordagem sobre a (des)construção dos gêneros. Sem sombra de dúvidas, é um livro atemporal. Sugestão mais que anotada. Amei sua resenha ♥
    Beijos!

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  4. Eu ainda não conhecia o livro e quando vi a capa eu logo me interessei por ele. Lendo a sua resenha eu vi um enredo completamente interessante e realmente atemporal, é incrível que mesmo com a diferença de tantos anos a leitura seja tão necessária ainda hoje. Me lembrei um pouco de A Garota Dinamarquesa, que não li o livro ainda, só assisti ao filme.

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  5. Oi Day!
    É com uma certa vergonha que admito que nunca li nada da Virginia Wolf. Conheço bem a história de vida dela e toda sua luta contra a depressão e outros transtornos que a atormentavam, mas até hoje não me encorajei a começar a ler. Gostei muito do enredo desse livro e da maneira como ele abordou a questão de gênero, sinto que ele será uma excelente porta de entra para a obra da Virginia.
    Bjs!

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  6. Olá, amei conhecer um pouco da história desse livro pela sua resenha e conferir suas considerações. Já é uma leitura que quero fazer. Achei muito interessante isso de o personagem poder, por exemplo, chorar livremente ao estar mulher, parece trazer muitas reflexões bacanas.

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  7. Olá,
    Eu já tentei ler algo dela, mas realmente achava tudo bem confuso e bem pesado, como você disse a escrita foi o que a salvou por um tempo e realmente da pra se perceber isso em seus livros. Porém achei interessante ela estar aqui neste contexto.

    Debyh
    Eu Insisto

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  8. Day menina que texto fantástico, parabéns. Nunca li nada da autora mas já li muitos elogios aos trabalhos dela. Vi o final de um filme inspirado na vida dela e vi essa cena da morte dela. Triste mesmo. Ela era tão à frente do tempo, por relatar temas que até os dias atuais são relevantes, mas não conseguiu ser equilibrada ... enfim foi uma estrela que passou e deixou sua marca.
    Valeu pela dica, não conhecia esse título. Parabéns pela leitura e texto sem igual!!!

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  9. Parece meio Garota Dinamarquesa não?!
    Poxa que legal, eu não conhecia esse livro, mas adorei. Acho que é importante colocar esse assunto em pauta, mesmo que as vezes soe como "hipocrisia" né?
    Essa questão do gênero é muito louca, eu mesma, no meu processo de aceitação, tive que passar por N coisas até me entender. Mas hoje em dia tá tudo beleza. E acho que vou ler, porque adoro livros com essa temática!

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  10. Olá, tudo bem?

    Não conhecia a autora e nem sua obra, mas achei bem interessante a premissa! Uma autora que é a frente do seu tempo merece ganhar destaques. Vou procurar saber mais dessa autora e suas obras. Sua resenha me deixou com vontade de ler.

    Beijos

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  11. Oi, tudo bem? Eu amo demais a Virginia! Mas eu ainda não consegui ler Orlando integralmente, tô achando bem diferente dos outros livros dela, muito mais denso, sabe? Eu gosto demais dos fluxos de consciência dela e acho que em Orlando também tem muito, ao contrário do que você disse, mas as vastas descrições acabaram me cansando e o livro está em stand-by já há algum tempo :/ Fico triste, porque falar de gênero também é algo que gosto muito de fazer e acho tão bonito o fato de esse livro ser uma homenagem dela à Vita, mas realmente ainda não tá rolando a leitura como eu queria. Fico feliz por ver mais gente lendo a Virginia! <333

    Love, Nina.
    www.ninaeuma.blogspot.com

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  12. Olá, ainda não tive a chance de ler nenhuma obra da autora, mas pelos seus comentários ela conseguiu trabalhar um tema que até hoje é bem difícil de levar a uma discussão bacana de uma forma muito boa e só por isso já estou mega curiosa para ler esse e os demais livros dela *-*

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  13. Você tem razão se hoje é complicado falar e o preconceito é às vezes escancarado e muitos velados, imagine naquela época. Que resenha mais completa e me emocionou. Claaaro, que vou correr para comprar Orlando.

    Bjo
    Tânia Bueno

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  14. Olá.

    Adorei sua resenha. O ponto que você cita "a mente de uma autora suicida" foi o qual mais me chocou. Não conhecia o livro e ele me despertou um grande interesse. Já vou colocar na wishlist.

    Beijos,
    Blog PS Amo Leitura

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  15. Olá! Acredita que eu nunca tinha ouvido falar desse livro e nem da autora? Sério mesmo, o que é uma pena, porque o enredo dele parece ser ótimo e com reflexões maravilhosas. Acho que é mesmo uma leitura necessária e espero conseguir realizá-la em breve. Abraços.

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  16. Oi!
    Nunca li nada da Virginia, mas tenho muita vontade, principalmente, por conta dos elogios que a autora recebe. Fiquei muito contente por saber que a autora abordou, há muito tempo, um tema que é tabu hoje e o fez muito bem. Também gostei muito dessa desconstrução do que é feminino e masculino.
    É uma dica extremamente valiosa que vou anotar, sem dúvidas.
    Beijos

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  17. Apesar de conhecer os trabalho dela, não tive oportunidade de ler nada ainda. Tenho muita curiosidade, até pela história de vida da autora.
    Bjs, rose

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  18. Olá!
    Eu não conhecia o livro e muito menos a autora mas tenho que admitir que estou encantada por esta obra, apesar da capa não ser nada convincente. Se eu estivesse em uma livraria e me deparasse com esse livro eu jamais iria comprar (já que eu não tivera lido sua resenha). Dica anotada, as pessoas precisam conhecer este livro tão precioso.

    www.paginasamais.com

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