RESENHA Quando tudo faz sentido

quinta-feira, 27 de setembro de 2018
Título: Quando tudo faz sentido
Autora: Amy Zhang
Editora: Rocco
Nº de Páginas: 320
Sinopse: "Liz Emmerson é uma garota popular no colégio e tem uma vida aparentemente invejável. Por que ela tentaria tirar a própria vida, simulando um acidente de carro depois de assistir a uma aula sobre as Leis de Newton? Neste surpreendente romance de estreia, Amy Zhang, que nasceu na China e mora no estado de Nova York, aborda temas como abandono, bullying, depressão e suicídio com uma narrativa crua e pungente que vai arrebatar os fãs de obras como As vantagens de ser invisível, Nuvens de Ketchup e Meu coração e outros buracos negros, entre outros. Na trama, Liz é resgatada por Liam, um garoto que ela sempre desprezou, mas talvez uma das poucas pessoas ao seu redor capaz de enxergá-la além das aparências. Envolvente e emocionante, o livro – que prende também pelo mistério se a protagonista vai ou não sobreviver (e que só é revelado no final) – mostra a fragilidade, a solidão e os dilemas dos jovens de forma sensível e sincera."
*Exemplar cedido em parceria com a editora. 


 Essa resenha faz parte do projeto Setembro Amarelo que tem como finalidade promover um debate saudável sobre saúde mental, transtornos, suicídio e formas de preveni-lo.

Eu sinceramente não sei como começar escrever sobre esse livro. Ao final da leitura, permaneceram em mim algumas reticências buscando respostas e os “porquês” acerca tudo e todos. Penso que não encontrei respostas concretas, mas refleti sobre o que realmente faz sentido no gigante inexplicável e imensurável chamado vida, sobre quais são as causas e efeitos que certas atitudes nossas implicam diretamente na vida de outras pessoas, e que, apesar de Liz Emerson achar que não, muita coisa importa.
Nunca julguei tanto um livro pelo nome e pela capa e nunca me enganei tanto quanto a tais fatores. No começo, pensei que fosse um livro, a princípio, sobre suicídio, que contaria a história de alguém que queria se matar por n motivos e então surgiria um grande amor e faria esse alguém mudar de ideia e ver a vida de um modo diferente. Mas não era nada disso. Esse alguém, tão esperado e imaginado por mim, era Liz Emerson – o tão citado nome no decorrer de 318 páginas –, uma adolescente tida como bonita e cheia de amigos, mas que na verdade não tinha ninguém, nem ela mesma.
É interessante o fato de que em momento algum há uma descrição efetiva de Liz ou de qualquer outra personagem no livro, os estereótipos ficam a nosso critério. É como se saber como as pessoas são fisicamente não importasse, e de fato não importa, o que viria a importar é o que elas são, o que elas fazem, quem elas querem ser, quem elas deixam as pessoas acreditarem que elas sejam. E Liz Emerson conseguia muito bem disfarçar quem ela era para dar lugar ao que ela tinha se tornado.



Liz tem duas melhores amigas, Kennie e Julia. Ambas populares no colégio em que frequentam: Kennie é uma dançarina, alegre e bobinha, enquanto Julia sempre foi a mais inteligente e a que se destacava em tudo que fazia. Já Liz, dispensa explicações, todos queriam ser iguais a ela. Destemida, determinada. Determinada inclusive a destruir a vida de qualquer pessoa que se intrometesse em seu caminho, fazendo coisas das quais ela não se orgulhava nenhum pouco, mas não sabia como parar. Como voltar a ser a criança feliz que sempre fora antes de seu pai falecer? Como preencher o vazio do silêncio que ecoava sempre que sua mãe viajava em compromissos e preocupações que Liz obviamente não fazia parte? Entre uso de drogas, abuso sexual, culpa por ser um ser tão odiável para ela mesma, Liz não aguenta o peso que viver tem se tornado a ela. Ela quer que a gravidade a torne um ser que flutue para longe e que nunca mais volte, porque afinal, nada importa, nem ela. As aulas de física a mostraram as leis de Newton, o corpo em movimento e o corpo em repouso. Liz certamente era um corpo e uma mente em total e completo movimento, mas que queria parar, queria entrar em repouso constante. Decide, planeja, calcula sua própria morte. Ela não queria que as demais pessoas achassem ou sentissem algum tipo de culpa por seu suicídio, Liz quer que pareça um acidente de um carro em que não existiriam culpados, talvez nem ela mesma. Em sua última semana de vida, ela tentou encontrar razões para continuar viva, algo que não a levasse a ruína completa por ela ser ela, e por ter contribuído para a vida de tanta gente ficar pior. Porém, nessa última semana, Liz não disse o que gostaria de dizer, não fez o que deveria ser feito. As palavras não saíam, o silêncio já tinha ocupado não só um buraco, mas todo o seu corpo. Era difícil fugir da decisão de acabar com seus dias, memórias, pensamentos. E tudo importava, e importava muito, mas não era o suficiente. Nada era, não mais.
O livro apresenta um tom lírico e reflexivo incrível, com um narrador mais incrível ainda. Emocionei-me em diversas partes, pois apesar de ser uma narrativa levíssima – seus capítulos são extremamente curtos, mas bem divididos e compreensíveis – carrega e transmite uma profundidade extraordinária, que me fez sentir a dor de ser uma pessoa que fizera coisas tão ruins e que sofria muito por isso, mas que infelizmente, não teve forças para mudar, antes do tarde demais. Foi tão tocante e surpreendente o fato da escolha de Liz por sua morte ter partido de fatos que ela fez para outras pessoas, coisas das quais ela não se perdoava e das quais ela não voltou atrás para tentar fazer “o certo”. Ela não se deu uma segunda chance, pois acredita que elas não existiam. E foi tão triste perceber o quão grande era a dor que ela sentia por causar dor em outras pessoas... Fez-me perceber como é importante nos colocarmos no lugar dos outros e nos atentar-nos nas consequências e impactos de nossos atos na vida de outras pessoas, visto que a culpa que carregaremos será eterna. Penso que o que tenha faltado a Liz não seja empatia, pois ela sentia as dores de quem ela magoava, ela sabia muito bem o que ela estava fazendo. Porém, ela não fazia nada a respeito, se calava e mascarava os fatos, e isso, não deve acontecer. Contribuir para a destruição da vida de pessoas que ela mantinha sentimentos era sua própria destruição. Liz tinha sofrido muito e ela projetava tudo isso em suas atitudes. Ela foi vítima, tanto quanto qualquer pessoa que ela maltratara. Liz poderia ter percebido, muito além da culpa, que seus amigos a amavam, sua mãe, apesar da ausência a amava, todos amavam Liz. Liz não se amava e isso foi fazendo com que ela desaparecesse pouco a pouco.
Eu recomendaria esse livro a qualquer pessoa que quer repensar sobre as questões que permeiam a vida e o suicídio, de modo que tal leitura contribuiu para que eu percebesse que certas coisas importam sim e muito, e que somos importantes para outras pessoas, e que, as vezes, só as vezes, quando tudo faz sentido, conseguimos enxergar que não são somente raros momentos que fazem tudo fazer sentido, mas sim uma trajetória inteira que fala com uma voz nítida em nosso ouvido “fique vivo”.

“Sete dias, sete chances. Acordaria mais sete vezes e procuraria uma razão para continuar. Daria ao mundo uma semana para fazê-la mudar de ideia. Mas também sabia que a vida era frágil. Se aquela semana falhasse, sabia como estilhaçá-la.”




12 comentários:

Barbara M. Cabalero disse...

Oi.
Eu acho um tema muito pesado, mesmo que tenha sido abordado de forma leve. Achei interessante e diferente o fato de que o que levou a personagem a tomar tal decisão foi a culpa pelo mal que ela fez a outras pessoas. Normalmente só vemos o outro lado da moeda, então é interessante um ponto de vista diferente.
É um livro que eu leria sim, mas não no momento. Vou anotar a dica aqui.
Beijos.

Ana Caroline disse...

Olá!

É ótimo quando esperamos uma história de um livro, mas ele nos surpreende e vem com outra completamente diferente, né?!
A história de Liz parece aquela típica história de quem tem tudo ao seu redor, mas se sente vazia por dentro. Fiquei curiosa a respeito dela querer se suicidar, mas ao mesmo tempo querendo que não parecesse um suicídio para ninguém sentir pena ou culpa dela. Gostei da premissa do livro!

Beijos,
http://pactoliterario.blogspot.com.br

Debyh disse...

O que me pegou nesse livro é que assim… Liz não presta, ela é uma adolescente terrível que prejudicou outros adolescentes. Mas quando você vai lendo sobre os outros, eles também não são bons, a diferença é que Liz percebeu isso, e o erro dela (claro ela estava doente isso agravou tudo) foi se culpar por tudo. Mas veja uma coisa engraçada, mesmo com todas essas babaquices dela e mesmo ela sendo autodestrutiva (coisa que detesto com todas as forças) é óbvio que ela não merece morrer. Eu acredito em segundas chances. O maior ensinamento deste livro é este, nada, nem uma pessoa horrível merece a opção de suicídio, as coisas podem se resolver e todos merecem uma segunda chance.

Debyh
Eu Insisto

Lara Xavier disse...

Olá,
Eu não tinha conhecimento sobre esse livro, mais estou curiosa para saber mais sobre a Liz e os motivos que levaram ela a se suicidar, e eu amo livros que me fazem refletir sobre vários aspectos e esse me parece ser um ótimo livro. Dica anotada

kênia Cândido disse...

Oi Dayhara.

Mais um livro com tema forte que não conhecia, apesar da sua opinião está maravilhosa, dessa vez o livro não despertou meu interesse. Mas vou deixar a dica anotada, pois posso mudar de ideia e dar uma chance para história. Parabéns pela dica.

Bjos
https://historiasexistemparaseremcontadas.blogspot.com/

Bianca Ribeiro disse...

menina que peso de livro, socorro.
Adorei a temática, de um jeito meio "tonto" de falar, qualquer coisa pode ser o estopim pra alguém tirar a vida e aparentar ser o tipo de ser humano que todo mundo inveja, sei como é ser esse tipo de pessoa. Vou ler ele com toda certeza!

Aline M. Oliveira disse...

Oi Day! Não conhecia o livro, mas fiquei pensando nas coisas que você escreveu sobre ele. Acho que me lembrou um pouco de Por lugares incríveis,por causa da pegada do suicídio e tudo mais. Mas essa história parece ser mais pessoal, com a garota sabendo exatamente o que fazia, e perdendo o controle aos poucos. Gostei muito da dica, e embora suspeite do final, acho que vou gostar muito. Obrigada pela dica!

Bjoxx ~ www.stalker-literaria.com ♥

Marijleite disse...

Olá, ainda não sabia do que se tratava a história desse livro. Me parece que a protagonista tinha isso mesmo que você disse: falta de amor por si própria, falta de vontade de continuar a viver; li a sinopse tem mesmo muito em comum com os citados na sinopse, é uma leitura que talvez eu faça futuramente.

Nina Tavares disse...

Oi Day!
Eu ainda não tinha lido uma resenha desse livro e estou impressionada com a história. O seu texto ficou muito forte e me fez refletir sobre o quanto não temos a menor noção de qual a dor que o outro carrega. Na maioria das vezes julgamos só pelas aparências e temos a sensação de que todo mundo é tão lindo e feliz, com uma vida tão perfeita e não percebemos o quanto o outro precisa de apoio. Linda resenha!
Bjs

Book Obsession disse...

Olá!
Eu adoro esse tipo de leitura, começa de forma mais leve, mas traz um tema muito intenso e importante. Cada vez mais me surpreendo com as leituras e alguns enredos tem esse poder de nos tocar e plantar a sementinha da reflexão e de olhar cada vez mais para o próximo.
Sem dúvidas é uma leitura que me agrada conhecer.
Beijos!

Camila de Moraes

Mara Santos disse...

Li sua resenha e fiquei sem palavras, agora estou imaginando como ficarei ao ler o livro... Simplesmente, preciso dele para ontem!

Unknown disse...

Uau, estou impactada! E sinceramente, precisando ler esse livro pra me dar um belo choque de realidade. Acho muito importante a campanha do setembro amarelo e esse ano, não tive estrutura psicológica pra ajudar, precisei mesmo ficar quieta na minha e ter dicas de livros assim é uma boa dica. Adorei a resenha, obrigada pela indicação. Beijos

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