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Resenha A Desumanização

8 de maio de 2018


Acho que essa é uma das poucas vezes que não tenho palavras pra definir como foi a minha experiência ao realizar determinada leitura, foi o meu segundo contato com o autor. Inicialmente li apenas um conto seu para a aula de Teoria da Literatura e já havia notado a sua sensibilidade, mas nunca me passou pela cabeça que uma de suas obras poderia se tornar uma das minhas favoritas da vida. Pra vocês terem noção, eu simplesmente desisti de usar post its porque todas as páginas, todos os parágrafos, cada pedacinho dessa obra merece ser mencionado. É impossível falar sobre A desumanização sem mencionar a poética presente na obra, como ela foi perfeitamente criada para transformar o leitor, eu sai muito melhor do que entrei, podem ter certeza.


Aqui vamos conhecer Halla, a gêmea menos morta, por mais mórbido que isso possa parecer é a verdade, sua irmã morreu e ela pela primeira vez se vê sozinha no mundo, antes era como se sua existência estivesse intimamente ligada à existência de sua irmã, hoje seu fiel companheiro é o luto. Halla tem um pai incrível, que usa da poesia para manter o otimismo da filha, é o tipo de homem que só tem palavras sábias e certamente um transformador de almas se assim posso dizer. Mas para além disso, Halla precisa conviver com o ódio de sua mãe, depois que sua irmã morreu é como se ela fosse uma presença ruim, os castigos, as palavras, tudo é doloroso demais e muitas vezes tive a sensação de que Halla precisava passar por tudo aquilo para entender que precisava construir uma fortaleza em si mesma, vencer o luto e renascer, dessa vez independente. 


Li uma resenha no skoob em que dizia "Parece que li um sonho" e foi exatamente como me senti, a personagem principal é uma criança que passou por tanta coisa, com o luto tão gritante em sua mente, com situações tão precoces que muitas vezes senti que ela era uma mente idosa, presa em um corpo jovem. Halla sofre, meu Deus como sofre! Não só o processo do luto acaba transformando sua maneira de ver o mundo como também os acontecimentos que se dão a partir disso, como o ódio de sua mãe, que as vezes parece algo punitivo, outras vezes só natural e tantos outros assuntos que sinceramente podem ser grandes gatilhos. Mas não é sobre isso que quero falar, é sobre Valter Hugo Mãe, que homem! Minha vontade a partir dessa leitura é de ler cada uma de suas obras, pretendo fazer isso o quanto antes. Sua escrita é visceral, detalhista e muito questionadora. Finalizei essa obra com uma ressaca literária que dificilmente será curada, sinto que Halla precisou passar por isso tudo para mostrar como nós somos moldáveis ao mundo, e não o contrário. 

Uma obra triste, incrivelmente triste, mas que vai transformar a sua vida e a sua trajetória como leitor, esse é um daqueles 100 livros que precisamos ler antes de morrer, sabe? Pois é.
"Acontecia gostar dele. De gostar muito dele. E por cada instante me deixava levar pela ideia boa de partilhar e perdoar-me por ter crescido a partir de tanta insignificância. Redimia-me lentamente."

Título: A Desumanização
Autor: Valter Hugo Mãe
Editora: Biblioteca Azul
Nº de Páginas: 160
Sinopse: "Na paisagem gélida da Islândia, a menina Halla, de apenas onze anos de idade, busca compreender os sentimentos que surgem com o falecimento de sua irmã Sigridur. Vivendo a divisão permanente das “crianças espelhos”, Halla nos guia por impressões de transitoriedade e perda a partir do seu ponto de vista infantil e, por isso mesmo, cheio de uma simplicidade profundamente poética. O sofrimento do luto, a solidão e a violenta frieza da mãe se misturam com a paisagem inóspita da Terra do Gelo e, somados à narração lírica e melancólica de Valter Hugo Mãe, em que o desamparo dos personagens é superado por uma compreensão sublime e bela de sua condição, transformam esta obra em um primor da literatura contemporânea."
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