Posts Recentes

RESENHA A Balada do Black Tom

21 de dezembro de 2018


Consternada, estupefata, chocada... Há muitos adjetivos que eu poderia listar de como me sinto depois dessa leitura. Quando peguei esse livro não imaginava que ele fosse ser assim, tão intenso e entorpecedor, tão conflitante, e se foi essa intenção de Victor Lavalle ao escrevê-lo, ele conseguiu com maestria. Graças a Editora Morro Branco, que não para de me surpreender, devo acrescentar, eu pude ler duas obras em uma única nessa maravilhosa edição. A Balada do Black Tom é uma releitura de um dos clássicos do escritor H.P. Lovecraft intitulado “O Horror em Red Hook”, e ele é tanto um tributo ao clássico quanto uma crítica ao caráter xenofóbico, racista e controverso da obra, que também eram muito latentes no século XIX. É uma obra que contém um terror bizarro, mistério, situações de natureza humana, por muitas vezes revoltante, que mostra a situação dos negros nos anos vinte (em certas coisas não tão diferentes de hoje) e com uma crítica que com certeza muda um pouco mais a nossa forma de enxergar o mundo e a sociedade na qual vivemos.  


Charles Thomas Tester, em seus vintes anos, sabe perfeitamente a situação de um homem negro frente a sociedade, assim como também sabe a magia e as manobras ardilosas necessárias para tornar-se invisível para as vistas indesejáveis. Ele vive no Harlem com seu pai doente, Otis, e faz de tudo que está ao seu alcance para colocar comida na mesa e um teto sobre suas cabeças, e isso consiste em todos os tipos de trambiques e trabalhos possíveis, mesmo contra a vontade do pai, que estendem-se de sua vizinhança até as áreas menos seguras, pelo menos para um homem de sua cor, do Queens. E é durante um desses trabalhos que ele vê sua vida mudar completamente, quando mundos se descortinam e ele passa a ter conhecimento de um tipo mais profundo de magia.

Com uma perda dolorosa e escolhas perigosas, Tommy Tester, mergulhado no ódio e na magia, assume uma nova identidade, o Black Tom, tenente de uma tempestade cataclísmica que abalará não apenas a sua vida, mas a de todos.
“Dê às pessoas o que elas esperam e pode conseguir delas tudo o que precisa. Elas não percebem que você as sugou até estarem secas.”

Há muito a falar desse livro ao mesmo tempo que eu não faço ideia do que dizer. Eu não tive muitas experiências com o gênero terror antes, mas posso dizer que eu não estou desapontada. Victor Lavalle soube levar muito bem a narrativa e, embora fosse um assunto um tanto pesado, a leitura em si não é difícil. Apesar de ser uma leitura relativamente curta, com poucas páginas, acho que eu deveria ter consumido ela um pouco mais devagar, porque há muito para absorver.

Primeiramente, é preciso prestar atenção nele como um todo, a começar por essa capa, que à primeira vista parece simples, mas que quando você se aprofunda na história percebe que é muito representativa. A história se divide em duas partes narradas por dois personagens diferentes, a primeira por Tommy Tester e a segunda pelo detetive Malone, mas ambas são de extrema importância para notar o contraste do personagem principal. Na primeira, pode-se dizer que Tommy ainda é um garoto, filho amoroso, alegre, sempre interessado no próximo trabalho e em quanto dinheiro vai ganhar, além de estar sempre com seu inseparável estojo de violão, embora não seja o mais hábil dos músicos. Na segunda parte, por outro lado, já temos o Black Tom, frio, impiedoso, poderoso e que não hesita em matar se for necessário, sempre com sua navalha e capaz de orquestrar uma balada infernal. E por balada aqui entende-se “canção com andamento lento”. O interessante ao notar essa mudança vem do que o levou até ela, porque Tommy não era uma má pessoa, certos acontecimentos (que não vou comentar porque seria um grande spoiler) o levaram até esse caminho.

E isso é uma coisa que nos faz perceber a crítica presente no livro também, que é bem notável. Das situações degradantes e horríveis enfrentadas por imigrantes e principalmente, pelos negros, das humilhações que sofriam, das restrições, da violação e do abuso. Do tipo de menosprezo que sofriam, e posso dizer que ainda sofrem, não apenas pela cor da sua pele, mas também por sua cultura, por suas tradições religiosas, pelo seu jeito de ser. E essa foi uma das coisas que me deixou mais revoltada, porque havia certos momentos onde mostravam os negros sendo colocados basicamente no mesmo patamar de animais, como se eles não fossem humanos com direitos de sentir, de amar, de viver. O fato mais revoltante é saber que isso não é mera ficção, mas situações enfrentadas por milhares de pessoas todos os dias. Essa releitura não foi escrita de forma leviana, foi escrita por um homem negro, entendido do que diz, com a intenção de nos mostrar uma outra faceta de um clássico e da sociedade.

Para ajudar nisso, a Editora Morro Branco também ofertou, em maravilhosas páginas pretas, o conto original O Horror em Red Hook, a fim de que pudéssemos ter não apenas a experiência completa, ainda mais para quem não conhecia essa história, como também nos possibilitar nossa própria interpretação a partir da leitura das duas obras.

É uma leitura rápida, mais intensa, na qual pequenos detalhes vão se encaixando ao longo da narrativa, envolvendo, revoltando e em alguns momentos até horrorizando o leitor. É uma leitura que valeu a pena e que com toda certeza eu faria (e possivelmente farei) novamente.
“Qual deles vai herdar a terra na qual isso tudo está. Mas eles não veem desse jeito. Ninguém jamais se vê como o vilão, não é? Mesmo os monstros têm a si próprios em alta conta.”

Título: A Balada do Black Tom
Autor: Victor Lavalle
Editora: Morro Branco
N° de Páginas: 195
Sinopse: "As pessoas se mudam para Nova York em busca de magia e nada vai convencê-las que ela não está lá. Charles Thomas Tester luta para colocar comida na mesa e manter um teto sobre a cabeça de seu pai, aceitando fazer trambiques e trabalhos obscuros do Harlem a Red Hook. Ele sabe bem o tipo de magia que um terno pode proporcionar, a invisibilidade que um estojo de guitarra lhe oferece e a maldição escrita em sua pele, atraindo olhares atentos de ricas pessoas brancas e seus policiais. Mas quando faz a entrega de um livro oculto a uma feiticeira reclusa no coração do Queens, Tom abre uma porta para um domínio mais profundo da magia - despertando a atenção de seres que deveriam permanecer adormecidos. Uma tempestade que pode engolir o mundo está se formando no Brooklyn. Será que Black Tom irá viver para vê-la se dissipar?"

Todos os direitos reservados 2019 |
Desenvolvimento por: Suelen Marques - Web Design
Para o topo!