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RESENHA Hibisco Roxo

8 de fevereiro de 2019


Quando iniciei o curso de Letras, um dos grandes motivos foi a matéria de literatura, a ideia de estudar sobre livros me deixava animada demais, entender correntes teóricas, o motivo da escrita... Tudo era muito mágico, mas ver isso na prática foi muito melhor! Meu professor nos indicou essa leitura para que pudéssemos analisar personagens e qual a profundidade de cada um, confesso que a última coisa que fiz foi isso, eu me prendi a essa história de tal forma que não consigo parar de ler os quotes, retomar a leitura, o mundo de Chimamanda é tão mágico que não quero mais sair dele.


Kambili é uma adolescente diferente, ela aprendeu a sussurrar antes de falar, a andar de cabeça baixa e desde sempre aprendeu que as decisões de sua vida não são dela e sim de seu pai, que sempre opta pelo caminho que Deus desejar. Ela tem outro irmão JaJa, sempre quieto, na dele, mas que desde o início você sente o espírito rebelde do garoto, e obvio que ele paga o preço por essa rebeldia, pois bem, a narradora é Kambili e você vai observar o fanatismo religioso de seu pai pelo olhar dela.


Essa leitura é pesada demais, sinceramente. O Papa, como é conhecido o pai de Kambili, é um homem rico, dono de várias indústrias de alimentos e um jornal que é contra o governo, desse modo podemos observar como a família é diferente do restante do contexto da Nigéria, eles são ricos, muito ricos, esbanjam dinheiro, a primeira coisa que você pensa quando vem Nigéria em mente, é a pobreza, certo? Os paradigmas já começam a serem quebrados logo aí, porque ter essa ideia fechada sobre a Nigéria é um modo de pensar preconceituoso também! Papa teve uma infância difícil e foi educado por missionários brancos e que pregam a religião branca, ele se tornou um homem que nega e até mesmo abomina os deuses considerados por nigerianos, pra você ter ideia, ele não fala com seu pai e restringe a aproximação dos filhos por puro preconceito, já que seu pai é um pagão. Como se não bastasse Papa bate com frequência em sua esposa, ela perdeu seus bebês tantas vezes por apanhar, que parei de contar os abortos no decorrer do livro, isso é triste demais.

Tanto Kambili quanto seu irmão são constantemente castigados, qualquer coisa que leve seu pai a desconfiar que eles estão pecando, é motivo para castigos, principalmente físicos, eles apanham até por não serem os melhores alunos de sua sala, o segundo lugar é inaceitável. 


As coisas melhoram quando sua tia resolve levar ela e Jaja para passar uns dia com ela, Kambili começa a observar os primos e se atenta aos comportamentos, ali ela começa a entender o que é ser uma adolescente de verdade, acredito que seja nesse momento que tanto ela quanto seu irmão começam a criar um tipo de independência, pois até aquele momento era seu pai quem controlava até as roupas que eles vestiam.


Eu sofri do início ao fim, foi muito triste ver Eugene, o Papa de Kambili negando os costumes de sua terra e se rendendo a uma religião eurocentrada, ele sentia nojo dos costumes religiosos da Nigéria. Eu senti um aperto no peito cada vez que Kambili descobria uma simples coisa nova, como usar bermuda, batom, tudo isso em sua casa era proibido, já o seu irmão... Ele se tornou um grande homem no decorrer da história, foi um dos personagens que mais vi amadurecer. A mãe de Kambili é a típica mulher submissa que não tem voz porque seu marido é bondoso demais para a igreja, mas fique atento, ela vai te surpreender no final da trama e te fazer vibrar!


A tia de Kambili apareceu como um anjo, professora universitária, militante e sem medo de bater de frente com o irmão, ela mostrou para a sobrinha que tudo bem ser adolescente, que tudo bem ser vaidosa e que é possível ser feliz apesar da pobreza.


O livro tem uma carga emocional muito forte e quando eu achei que já estava tudo bem e não podia mais sofrer, Chimamanda deu a cartada final, por mais que Eugene seja uma pessoa doente, eu terminei a leitura sentindo pena e chorando por ele, querendo ajudá-lo, já com o restante da família... Meu coração ficou imensamente grato pelos rumos tomados.


Essa é uma leitura mais do que necessária, que trata do fanatismo religioso, o problema de negar nossas origens e como calar a voz de uma família pode silenciá-la para sempre. Chimamanda surge como um dos grandes nomes da literatura negra a nível mundial e Hibisco Roxo ganhou um lugar carinhoso em meu coração.

“A rebeldia de Jaja era como os hibiscos roxos experimentais de tia Ifeoma: rara, com o cheiro suave da liberdade, uma liberdade diferente daquela que a multidão, brandindo folhas verdes, pediu na Government Square após o golpe. Liberdade para ser, para fazer.


Título: Hibisco Roxo
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Nº de Páginas: 328
Sinopse: "Protagonista e narradora de Hibisco roxo, a adolescente Kambili mostra como a religiosidade extremamente “branca” e católica de seu pai, Eugene, famoso industrial nigeriano, inferniza e destrói lentamente a vida de toda a família. O pavor de Eugene às tradições primitivas do povo nigeriano é tamanho que ele chega a rejeitar o pai, contador de histórias encantador, e a irmã, professora universitária esclarecida, temendo o inferno. Mas, apesar de sua clara violência e opressão, Eugene é benfeitor dos pobres e, estranhamente, apoia o jornal mais progressista do país. Durante uma temporada na casa de sua tia, Kambili acaba se apaixonando por um padre que é obrigado a deixar a Nigéria, por falta de segurança e de perspectiva de futuro. Enquanto narra as aventuras e desventuras de Kambili e de sua família, o romance que mistura autobiografia e ficção, também apresenta um retrato contundente e original da Nigéria atual, traçando de forma sensível e surpreendente, um panorama social, político e religioso, mostrando os remanescentes invasivos da colonização tanto no próprio país, como, certamente, também no resto do continente."

30 comentários:

  1. Oiieee

    Pela resenha ja da pra sentir o quanto a leitura é pesada e dura, aquele tipo de trama que trata sem rodeios temas que a gente meio que evita falar diretamente. Acho necessário e interessante livros assim, ainda que num primeiro momento façam a gente sofrer junto com os personagens. Gostei demais da resenha, ficou linda e o livro com certeza merece uma oportunidade.

    Beijos

    www.derepentenoultimolivro.com

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    1. Oi Alice, realmente é uma leitura bastante tocante e que te emociona demais, espero que leia o quanto antes!

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  2. Olá!
    Esse livro está em cada rede social que entro, e é quase unânime o quanto a história está chamando a atenção dos leitores. É a primeira resenha que leio e já pude notar o por quê ele vem ganhando espaço. Ver esse tema pelos olhos adolescentes, para mim, enriquece e muito a leitura
    Bjim!
    Tammy

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    1. Oi Tammy, acho que o narrar pelo ponto de vista da Kambili é realmente o que faz a narrativa ganhar um tom tão mais real.

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  3. Oi, tudo bem?

    Eu ainda não tive oportunidade de ler esse livro em especifico, mas todos os livros da autora são tão bons e tão politicos e com uma mensagem tão forte, eu gosto muito do jeito que ela escreve. Adorei a sua resenha, me deu uma animada pra ler esse livro!! <3

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    1. Oi Bianca! Eu também amo Chimamanda, tudo que ela escreve é um show, né? Pretendo ler mais coisas dela esse ano!

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  4. Eu simplesmente amooo esse livro. Amo de paixão, aliás, qualquer coisa que a Chimamanda faça, ela consegue por uma sensibilidade na crueza.

    Eu li esse livro com o coração apertado o tempo todo, mas maravilhada com a história ao mesmo tempo. A tradução também foi um trabalho primoroso <3

    Concordo com você, todo mundo deveria ler esse livro.

    --
    Tiffannyk
    https://thereviewbooks.com.br
    #thereviewbooks | @threviewbooks
    🔛 Ouça nosso podcast e concorra a um Big Rock autografado.

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    1. Sim, a tradução é incrível! O trabalho da editora em si é maravilhoso quando o assunto é Chimamanda, ouvi um podcast deles e foi sensacional. <3

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  5. A algum tempo quero ler esse livro, seja por nunca ter tido nenhum contato com a cultura nigeriana, seja pelos assuntos abordados nele. Imagino o quanto sofreu com a história, ainda mais por sabermos que coisas retratadas nela são reais na vida de muitas mulheres, seja com maridos religiosos ou não. Quero ler e espero me surpreender com o rumo que a trama vai tomar.

    Abraços.

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    1. Cami, prepare esse coraçãozinho pra se emocionar de montão.

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  6. Olá, tudo bem? Já vi esse livro diversas vezes por aí, mas não tive a oportunidade de lê-lo ainda, porém pelo o que tu disse parece ser mesmo uma obra muito interessante e importante. Adorei a resenha!

    Beijos,
    Duas Livreiras

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    1. Oi Lari, espero que tenha a oportunidade de ler em breve, é uma leitura bastante necessária!

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  7. Nossa, deve ser uma leitura muito pesada mesmo. realmente quando a gente pensa na Nigéria pensa na pobreza. Mas existe esta coisa de renegar a cultura. Acho que se fosse passar um dia em cada cultura, ia ser tão chocante que no final não teria condições de aceitar tudo.

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    1. Oi Greice, acho muito bacana que a autora aborde outro lado da Nigéria, do ponto de vista de uma família considerada rica, quebra vários estereótipos já.

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  8. Eu quero muito ler esse livro, mas não sei se teria estômago para encarar a leitura. Estou acostumada a ler livros pesados e com toda essa carga emocional, mas esse me parece ser diferente e muito intenso. Adorei ver sua resenha sobre ele e espero que eu possa realizar essa leitura em breve.

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    1. Bea você tá acostumada com leitura pesada, relaxe que vai encarar fácil, mas por ser mãe, irá se emocionar bastante.

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  9. Não conhecia a obra, mas achei ela bem interessante, o livro possui uma temática diferente, pesada e bem importante a ser discutida. Gostei de conferir sua oínião sobre ele.
    bjos
    Pah
    Lendo e Escrevendo

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  10. Olá, tudo bem?

    Eu já conhecia esse livro por meio de outros blogs e confesso que fiquei interessado na temática, sei que é pesada, mas é importante ser discutido. Gostei da sua resenha e impressões, parece ser uma leitura realmente intensa!
    Abraço!

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  11. A Chimamanda é maravilhosa, né?! Dela por enquanto só li um livro de contos, e me deu mesmo uma visão muito mais ampla sobre a Nigéria. Esse livro traz uma história forte, é chocante o que esse personagem faz com a família.

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    1. Oi Mari, você leu No seu pescoço, né? Tô louca pra ler!

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  12. Oi Day, sua linda, tudo bem?
    Não conhecia essa autora, mas já virei fã depois de ler a resenha, saio daqui precisando ler esse livro. Que capa!!! Já começa por aí. E que pai é esse? Eu entendo perfeitamente seu sentimento em relação a ele depois de tudo o que ele fez, essas pessoas são as que mais precisam de ajuda realmente. Nunca li nada com o contexto cultural da Nigéria, mais um motivo para ler Hibisco Roxo, que por sinal, amei esse título. Adorei sua resenha!!!
    beijinhos.
    cila.

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    1. Oie, é muito bom sairmos de nossa zona de conforto, definitivamente eu indico chimamanda, você vai amar!

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  13. Este livro está na minha lista para ser lido ainda este ano e a sua resenha me lembrou dos motivos que fazem querer ler. A trama é forte e nos faz pensar e isso é o que mais me empurra para este livro. Adorei o quote que você compartilhou fazendo referencia aos hibiscos roxos.
    Beijos

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  14. Olá.

    Acho que é a primeira resenha que leio deste livro e fiquei impactada. Imaginava que o livro era pesado e abordava alguns assuntos delicados, mas não imaginava que fosse da forma como relatou. Fiquei muito curiosa pela leitura. Vou adicionar na wishlist.

    Beijos,
    Blog PS Amo Leitura

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  15. Já li um título dessa autora e realmente ela abala, mas nos faz sentir vivo e nos leva a refletir sobre tudo de essencial na vida. Enfim valeu demais pela dica e resenha. Dica mais que aceita.

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  16. Oi Day,
    A obra já esta no meu kindle há um tempinho, mas nunca tinha parado para analisar a sinopse ou resenhas, sou do tipo que olha a capa, gosta e investe. Mas lendo sua resenha agora, percebo que acertei na capa, mas errei em demorar tanta pra ler, vou terminar o livro que estou lendo e passar Hibisco Roxo na frente dos outros. Amei a resenha.

    Beijokas

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  17. Oi!
    Não conhecia esse livro ainda e ele parece ter uma pegada emocional bem forte!
    Ainda não tive contato com algum livro que fale sobre fanatismo religioso e este parece ser muito interessante, cheio de personagens "vivos".
    Fico meio receosa por ser uma leitura pesada, mas quero muito conhecer a história de Kambili. Espero que este livro também ganhe um espaço especial no meu coração.
    Abraços

    FLeituras

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