Posts Recentes

O ódio que você semeia e os motivos para assistir

27 de fevereiro de 2019


Quem acompanha o blog tem algum tempinho sabe que o O ódio que você semeia é o meu livro favorito da vida, rendeu tatuagem, alguns papos com Angie Thomas via instagram e muito choro. Li a obra assim que ela foi lançada e nunca me emocionei tanto em minha vida, a autora soube como tratar de temas bastante sérios, em um livro voltado para o público adolescente(mas sinceramente, todos deveriam ler). O livro figurou entre as listas de mais vendidos de inúmeros países e essa colocação foi merecida demais, assim que soube que seria adaptado para os cinemas meu coraçãozinho parou, de felicidade ao saber que uma obra tão necessária estaria sendo colocada para além da literatura, e por medo de que a adaptação não fosse tão boa assim, no primeiro trailer qualquer receio caiu por terra, me emocionei demais e sabia que não iria me decepcionar como havia pensado, quando o filme foi lançado, a decepção veio, mas pelos motivos errados, o filme foi lançado em pouquíssimas salas de cinema no Brasil todo, um filme tão necessário, que fala de temas tão atuais e coloca todo mundo que assiste para refletir, deveria ser melhor divulgado. Muita gente questionou isso com a produtora do filme, mas infelizmente a coisa não mudou de figura, demorei muito para finalmente conseguir ver essa obra MARAVILHOSA e desidratei de tanto chorar.  Para quem não sabe sobre o que se trata o livro, farei um breve apanhado: Starr desde cedo aprendeu a se comportar de uma certa maneira para não virar estatística no índice de genocídio da população negra, ela de certa forma é privilegiada, estuda em um colégio particular muito bem conceituado, mas vive no gueto, graças a isso ela criou um escudo. No gueto ela é a garota negra que sempre foi, filha de um homem respeitado e que ninguém se atreve a entrar no caminho, na escola Starr é uma garota que procura se conter o máximo possível, ela tenta não alterar sua voz, ser sempre simpática e nunca contestar as amigas, ela faz de tudo para que as pessoas não façam aquela velha ligação idiota de que se você é negro, vai ser bravo, briguento e coisas do tipo, é como se ela tivesse uma personalidade para cada local que ocupa, isso soa preocupante, ela não pode ser quem gostaria, está sempre se policiando.

Tudo vai bem, Starr segue se sentindo um pouco deslocada em seu bairro por nunca andar com o pessoal de lá, até que um dia resolve ir em uma festa e encontra seu amigo de infância, Khalil, ele mudou bastante, ela sabe que há algo de errado, que Khal deve estar andando com gente da pesada, enquanto vão embora a polícia para o carro de Khal e durante esse episódio ele é morto, Starr vê tudinho, um de seus melhores amigos morre na sua frente e isso não é a primeira vez. Não se assuste, não tem nada de spoiler aqui, esse é o pano de fundo para que a história comece a acontecer, Khalil morre na frente de Starr e por um momento parece que ela revive a infância, onde sua amiga também foi morta por uma bala, acontece que as coisas mudaram, quando mais nova Starr foi colocada em uma redoma onde todos protegiam a ela para que não tivesse ligação alguma com o ocorrido, uma testemunha silenciosa, agora as coisas são diferentes. A polícia tenta colocar Khalil como um traficante que tentou reagir, Starr sabe que a situação não foi essa mas para que os outros saibam ela precisa falar, ir contra tudo, policiais, imprensa, traficantes, para que sua voz seja ouvida ela precisa reconhecer essa luta como sua, enfrentar seus medos, deixar que seus dois mundos venham a se colidir e que assim a justiça seja feita.


 Pois bem, mas quais os motivos para assistir?

 A importância da família:

Durante toda a trama, as pessoas que mais me chamaram a atenção foram os familiares de Starr, o pai dela é o homem mais maravilhoso do mundo! Ele não tem medo de apoiar seus filhos e mostrar a eles qual o caminho certo e errado, usa o seu passado como exemplo, além disso, é um sinal de força e referência familiar, sempre defendendo seus filhos e dando os melhores conselhos. Absolutamente tudo o que esse homem fala eu tive vontade de grifar, o Sr. Carter é uma lenda, quando vi como isso foi adaptado para o cinema eu fiquei chocada, era exatamente isso que eu esperava, e para mim, as melhores cenas são as quais ele participa. Além disso, Sekani, o irmão mais novo de Starr protagoniza as cenas mais tocantes, eu não sei lidar com a fofura daquela criança atuando, mas também não sei lidar com a maneira como o título do livro foi usada por ele para mostrar como as coisas funcionam realmente na sociedade, a cena final me deixou sem reação mas me fez compreender como crianças absorvem as situações e traumas de maneira totalmente diferente dos adultos e que devemos tomar cuidado com isso. Seven Carter, o irmão mais velho de Starr é um exemplo do legado do seu pai, ele é um garoto bastante jovem mas que já entende como as coisas funcionam para a comunidade em que ele vive e não pensa duas vezes quando o assunto é defender as pessoas que ama. A mãe de Star, Lisa, é uma mulher extremamente protetora, que muitas vezes quis esconder seus filhos do mundo, mas pelos motivos certos, quando você vê pessoas próximas a você morrendo, não há muito o que fazer. Acontece que quando paramos para pensar no potencial dessa família, é de ficar de queixo caído, apesar de todos terem opiniões bastante divergentes sobre muitos assuntos, eles nunca vão deixar de se proteger e lutar uns pelos outros, acompanhar isso é maravilhoso.


A inocência da criança:

Como mencionei, Sekani é uma fofura só, uma das coisas que mais me agradou na adaptação é que o garotinho ganhou muito mais espaço, as cenas mais apreensivas e com a carga emocional mais densa tem a participação dele, em alguns momentos precisei respirar fundo para conseguir parar de chorar, TJ, que é o ator mirim que faz esse papel, é extremamente talentoso e me surpreendeu positivamente. É ele quem carrega toda a metáfora do filme de alguma forma, e fez isso de maneira muito primorosa, como não amar?


A importância de reconhecer privilégios:

Uma das coisas mais bacanas é como o filme soube retratar bem os privilégios de cada um, como o fato de Starr estudar em uma escola particular, diferente das pessoas de seu bairro, ter uma boa estrutura familiar e como isso foi importante para ela ser a pessoa que é hoje, diferente de seus vizinhos que muitas vezes precisaram partir para atividades ilícitas, além disso, o filme mostra bem como os amigos da escola de Starr nem se dão conta de como são sortudos simplesmente por terem o que comer. Pra vocês terem ideia, eles acham super divertido o fato de não terem aula porque a morte de Khalil gerou manifestos, tiram selfies, dão risada, protestam apenas para postarem fotos no instagram, enquanto Starr chora por dentro, não entendendo porque as pessoas são assim e não se importam com o adolescente que morreu sem ter culpa. Muitas vezes a narrativa do filme retrata bem como nós, em nosso cotidiano, não nos damos conta da posição que ocupamos na sociedade, gerar essa reflexão por meio de uma narrativa adolescente e de maneira sutil, é uma maneira inteligente de propor questionamentos sobre o que fazemos pelos outros.


A importância da narrativa negra em editoras e o empenho para a propagação:

O ódio que você semeia foi uma obra lançada pela Galera Record, editora essa que sempre aposta em livros que envolvam minorias, o discurso desse selo sempre me enche de orgulho e com certeza é a minha editora favorita, onde me sinto amada, representada e ouvida. Assim que a adaptação saiu eu recebi um exemplar com a capa do filme e uma cartinha super atenciosa, ressaltando porque esse é um filme/livro tão necessário nos dias de hoje. COMO SE NÃO BASTASSE, recebi a lindíssima notícia de que a editora irá lançar On the come up, outro livro de Angie Thomas que vem fazendo bastante sucesso. Quer o mundo Galera Record? Eu te dou.


Faça com que sua voz seja ouvida, você é sua própria força:

Starr passa por muita coisa durante essa história, perde uma melhor amiga e anos depois perde Khal, vê sua família em perigo e sente medo de falar, mas ela sabe que para que a justiça seja feita, isso depende apenas dela, O ódio que você semeia é uma jornada de reconhecimento, onde a protagonista precisa encontrar a sua própria força e sua voz para que as pessoas certas sejam punidas. Se você não fala, ninguém fará isso com você.


Eu já perdi as contas de quantas vezes assisti esse filme, sempre choro, me emociono e noto algo novo, talvez seja uma das adaptações mais fiéis que pude conferir em toda a minha vida, e quando vi Angie Thomas atuando, mesmo que por pouco tempo, em uma cena, vibrei, quem acompanha a sua jornada sabe como ela é uma autora merecedora do sucesso que vem fazendo. Ela participou de toda a gravação e esse cuidado é notável até mesmo nos diálogos do filme, sempre tão fiéis ao livro. Além disso, a trilha sonora é maravilhosa e se encontra disponível no Spotify, recomendo! Para quem quer se emocionar, refletir muito, e se deliciar com um filme maravilhoso, O ódio que você semeia sempre será a minha primeira dica, uma narrativa envolvente e necessária em dias onde a intolerância muitas vezes parece prevalecer, não nos esqueçamos que o amor é a nossa melhor armadura, o ódio que o mundo semeia não pode nos afetar.
“Esse é o problema. Nós deixamos as pessoas dizerem coisas, e elas dizem tanto que se torna uma coisa natural para elas e normal para nós. Qual é o sentido de ter voz se você vai ficar em silêncio nos momentos que não deveria?”
Todos os direitos reservados 2019 |
Desenvolvimento por: Suelen Marques - Web Design
Para o topo!