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Literatura para enegrecer e empoderar

6 de maio de 2019


Esse ano nós somos parceiros da SESI-SP Editora, e não há prazer maior do que poder compartilhar o olhar sobre uma literatura tão bem produzida, o nosso primeiro pacotinho veio recheado de amor e representatividade. Luana, que cuida das parcerias teve o carinho de me mostrar essas edições maravilhosas e me enviar, porque sabia da minha alegria em receber essas duas obras. A experiência de leitura foi enriquecedora para a caminhada porque entendi como o descobrimento e o entendimento sobre questões raciais são processos, nem sempre fáceis, mas sempre repletos de muita reflexão.


O primeiro livro recebido foi Quando me descobri Negra, da Bianca Santana, eu não conhecia a obra e quando recebi meu coração ficou quentinho, o cuidado com a edição é algo que poucas vezes vi na vida, desde a capa cheia de representatividade, até as folhas, o formato e as ilustrações que carregam uma ancestralidade capaz de nos proporcionar uma força além do esperado. A obra é curtinha, do tipo que você lê em uma sentada mas eu preferi ler aos pouquinhos, um texto por dia, porque sabia que é o tipo de obra para se degustar. Mastiguei cada texto aos pouquinhos e absorvi tudo o que podia. São textos que refletem a realidade do negro no Brasil, seja no ambiente acadêmico ou em uma simples situação cotidiana, Bianca vai destilando todo o ardor que é ser negro, sem nunca deixar-se de mostrar orgulhosa por ser quem é. Esse é um livro empoderador e que eu adoraria ter lido quando adolescente, passar pelo processo de transição e de reconhecimento enquanto pessoa negra não é nada fácil, é um mundo perdido e que você precisa desbravar muitas vezes sozinha, mas agora sei que existem autores como Bianca, prontos para te mostrar o caminho, colocar o dedo na ferida e demonstrar que o problema não é você, o seu cabelo, o estereótipo, o problema são os outros, o racismo estrutural e tudo o que nos acomete. Essa é uma obra que recomendo e que definitivamente irei presentear minhas amigas, Bianca me deu um abraço de irmã, recheado por ancestralidade e a certeza de que não estamos sozinhas.


A segunda obra que recebi foi O diário de Bitita, escrito por Carolina de Jesus, a minha primeira experiência com a autora foi lendo Quarto do despejo, obra essa que nunca tive coragem de resenhar por aqui de tanto que me marcou. Sabe quando você encontra o livro da sua vida e sente que nenhum elogio será suficiente? É isso que acontece com Quarto do despejo, assim que comecei a ler O diário de Bitita percebi como eu queria que esse livro em especial fosse a minha primeira experiência com a autora, para entender muito do que Carolina foi em Quarto do despejo, é preciso ler Diário de Bitita, sabe por que? O livro foi publicado primeiro na França e depois no Brasil, é um relato autobiográfico um pouco mais intimo que Quarto do despejo pois a autora fala intimamente de sua vida desde a infância, até os tempos para além de suas outras obras, vamos conhecer aqui Bitita, a menina chorona e que ninguém aguentava por perto, a criança que queria ser homem pois assim seria respeitada, a adolescente audaciosa e que demorou a entender porque ser negro é sofrer duas vezes. Carolina quando pequena, achava que seu nome era Bitita, quando descobriu que não era, percebeu que se abriu para um novo mundo.
“Quando havia um conflito, quem ia preso era o negro. E muitas vezes o negro estava apenas olhando.”

Sempre observadora e sem medo de questionar, vamos encontrar aqui um relato sincero e sem meias palavras, percebe-se que a intenção da autora não era agradar, não era falar sobre racismo e muito menos diminuir a culpa das pessoas que passaram por sua vida. Carolina quis contar a sua história e ponto, isso basta, é forte e poderoso. Eu me apaixonei por esse livro desde suas notas iniciais, sobre a demora da publicação, os motivos e o fim de Carolina, até a última página, tudo foi muito especial. Carolina não era uma criança como as outras, ela não era somente curiosa, era única, já pequena era questionadora, tentava se impor, e o tempo todo observava as coisas ao seu redor, sempre tentando entender as injustiças do mundo. Essa obra é uma descrição crua e verdadeira de uma autora que infelizmente morreu do mesmo modo que se tornou famosa, na miséria. Carolina não teve o reconhecimento que merecia na época e muito me alegra que a editora SESI-SP tenha se atentado para a necessidade dessa obra. É necessário ler absolutamente tudo dessa autora para entender a condição do negro no Brasil, como o racismo abala até mesmo a nossa saúde mental e para além disso, questionarmo-nos porque a literariedade de uma mulher tão necessária ao mundo, por muito tempo foi ignorada.


Essas são duas obras que eu inquestionavelmente indico para toda e qualquer pessoa que queira uma leitura que mexa com o coração e a mente, ler ambas as autoras é questionar o seu lugar o mundo e a forma que você o ocupa. Leia Bianca, leia Carolina, mas acima de tudo, permita que outras delas floresçam e resistam em tempos tão sombrios como esse. 


Título: Quando me descobri negra
Autora: Bianca Santana
Editora: SESI-SP
Nº de Páginas: 96
Sinopse: "'Quando me descobri negra fala com sutileza e firmeza de um processo de descoberta inicialmente doloroso e depois libertador. Bianca Santana, através da experiência de si, consegue desvelar um processo contínuo de rompimento de imposições sobre a negritude, de desconstrução de muros colocados à força que impedem um olhar positivo sobre si. Caminhos que aos poucos revelam novas camadas, de um ser ressignificado. Considero este livro um presente, é algo para se ter sempre às mãos e ir sendo revisitado. Bianca, ao falar de si, fala de nós.'' - Djamila Ribeiro.
 
Título: Diário de Bitita
Autora: Carolina Maria de Jesus
Editora: SESI- SP
Nº de Páginas: 208
Sinopse: Um romance muito forte, com imagens muito trabalhadas, sobre a vida no negro no início do séc. XX. As primeiras escolas surgiam, e o racismo estava impregnado naquela cultura de uma forma mais explicita que hoje: “No ano de 1925, as escolas admitiam alunas negras. Mas quando as alunas negras voltavam das escolas, estavam chorando. Dizendo que não queriam voltar à escola porque os brancos falavam que os negros eram fedidos.”*Obras cedidas em parceria com a editora.
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