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RESENHA As quatro rainhas mortas

15 de janeiro de 2020


Talvez sejam as capas ou outros motivos, mas parece que quando olho, pelo menos na maioria das vezes, é mais o livro que me escolhe do que eu que o escolho. E eu me senti assim com As Quatro Rainhas Mortas. Esse livro me prendeu antes mesmo que eu lesse sua sinopse e fiquei satisfeita quando ele me caiu em mãos. Porque gosto de livros que me surpreendam. Aqueles que contém o tradicional e o inovador. Que possuem uma estratégia mirabolante, aventuras alucinantes e amores proibidos e surpreendentes. Além de personagens fortes e peculiares. É como se a história me chamasse. E, embora ainda esteja com uma ressaca literária depois de devorar esse livro, acho que posso dizer que fiquei ao menos parcialmente satisfeita com o que encontrei.

O continente de Quadrara é dividido em quatro quadrantes, cada um governado por uma rainha (apenas mulheres podem ascender ao trono) e que possuem determinadas funções. Archia, governado pela rainha Iris, é o quadrante responsável pela agricultura, a simplicidade e o trabalho duro. Eonia, governando pela rainha Corra, é o quadrante da tecnologia, onde é valorizado a evolução e a sociedade em harmonia. Ludia, governado pela rainha Stessa, a mais jovem das rainhas, é o quadrante do prazer, que valoriza a arte, a música e o entretenimento. E Toria é governado pela rainha Marguerite, sendo ele o quadrante do comércio, da curiosidade e da descoberta. As quatro rainhas governam Quadrara juntas, mas separadas, seguindo à risca as Leis das Rainhas em tudo que for melhor para sua nação. Mesmo que tenham que fazer sacrifícios e guardarem grandes segredos em meio a isso. Segredos que podem ser letais.

É a margem desse cenário que vive a toriana Keralie Corrington. A melhor e mais hábil larápia do distrito conhecido como Jetée, lugar onde todo tipo de charlatão, contrabando e transações do mercado desconhecido reinam. Onde ela é livre para ser, ter e fazer o que sempre quis longe dos desejos de seus pais. O último lugar onde um mensageiro eonista como Varin deveria chegar perto. No entanto, seus caminhos se cruzam quando Keralie, em uma hábil manobra, rouba uma importante encomenda transportada por Varin. Um estojo com chips de comunicação que no começo pareciam apenas um bom negócio para a larápia, mas que acabaram se mostrando uma coisa muito maior do que imaginavam. Uma conspiração para o assassinato das quatro rainhas de Quadrara.

Sem muitas escolhas e desesperados para salvarem suas vidas, os dois unem forças para tentar encontrar o assassino, mergulhando pelos corredores do castelo real em busca de pistas. No entanto, as coisas não são tão fáceis. Entre segredos, traições, amores proibidos e conspirações, Keralie e Varin acabam descobrindo que o assassino que procuram pode estar mais perto do que eles pensavam e que nem sempre as coisas são como parecem ser.
—Existe uma diferença entre estar em um lugar e enxerga-lo de fato. Minha arte me ajuda a ver além das aparências.”


Eu não imaginava que fosse conseguir ler esse livro tão rapidamente, porque sinceramente eu nem mesmo vi o tempo passando enquanto lia uma página atrás da outra. Além de amar todo o cenário e a configuração da história, com reinos e novas tradições, eu adorei a Keralie. Ela não é uma personagem totalmente inocente, com todos os princípios de bondade e coisa e tal. Ela é ambiciosa e egoísta. Está sempre pensando em tudo que possa lhe gerar lucro e sabe ser idiota as vezes. Muito embora não seja difícil entender porque ela é assim, já que ela precisa ser na profissão em que segue. E o legal de ver essas coisas nela é poder acompanhar o amadurecimento dela ao longo da narrativa, de alguém que pensa apenas em si mesma para alguém que enxerga muito mais. Alguém que cresce e que mostra ter um bom coração e até mesmo, talvez contraditoriamente, um pouco de inocência. Eu me irritei com ela e também sofri com ela, mas adorei a sua essência.

Apesar de se esperar que ela e Varin formassem um casal, como em toda boa história, adorei a dinâmica entre os dois. Eles têm uma relação que foi fluindo ao longo do que eles passavam e que continuava se construindo de uma maneira muito fofa, não uma coisa forçada. Varin é todo retraído, como um bom eonista que precisa sempre estar distante de suas emoções, mas ele também foge desses padrões por não conseguir se encaixar totalmente no que se esperava que ele fosse. Que foi treinado para ser. Ele é todo tímido, leal e parece uma pequena contradição ambulante. O que torna ele uma criatura completamente adorável e apaixonante. Ainda mais com a Keralie provocando e brincando com ele a todo momento, fazendo com que pouco a pouco ele saia de seu casulo. Ele se tornou rapidamente um dos meus personagens favoritos e perdi as contas de quantas vezes fiquei triste por ele, pela realidade na qual ele vivia. Que sinceramente, não parecia muito uma vida. Eu geralmente sou meio chata com casais em livros, mas eu gostei deles juntos. Foi até inesperado por algumas páginas porque eu jurava que a Keralie fosse se envolver com outra pessoa.


Gostei da complexidade com a qual a autora construiu as quatro rainhas também, o que foi uma coisa que realmente me surpreendeu. Seus jeitos, suas máscaras, seus segredos. Seus sacrifícios. Ela se preocupou em mostrar como as rainhas precisavam ser, de acordo com as exigências de seus quadrantes e de seus postos, e também como elas realmente eram. E eu adoro isso porque dá uma profundidade única para as personagens, mostrando mais do que apenas uma versão do que elas são. O que também faz com todos os fatos que aparecem ao longo da história se desenvolvam em toda uma estratégia mirabolante. Traições. Segredos. Manipulações. Mortes. Corações Partidos. Amores Proibidos. Foi como um choque e uma surpresa atrás da outra.

Em relação a outros personagens, eu afogaria Mackiel sem me sentir culpada por isso (vão entender porque dessa escolha de método), porque ele é o tipo de cara que você xinga de vários nomes possíveis. Entretanto, não posso deixar de lado em reconhecer o quanto ele é inteligente, manipulador e estrategista. Se você fosse procurar “Narcisista” no dicionário, é bem possível que um dos sinônimos fosse uma foto dele. A Arebella, como uma boa amiga minha gosta de dizer, só pode ser considerada como surtada. Ela foi inteligente e maldosa, o tipo de personagem que faz você sentir muita raiva, mas que também te decepciona com o que parece propor. Ela merecia uma revirada de olho minha a cada vez que falava.

Apesar disso tudo que falei, tem um ponto negativo nisso tudo. Foram muitos personagens apresentados na história para pouco tempo para trabalha-los. Mesmo com as explicações, ainda ficou um vácuo entre os personagens, um pouco vago, dando uma sensação, às vezes, de que estava muito corrido. Senti falta de um pouco mais de aprofundamento nos personagens e de suas histórias, porque isso era algo que faria uma grande diferença e melhoraria ainda mais a história. Porque a autora criou situações boas, mas não as aprofundou ou explorou o bastante.

Mesmo tendo gostado da história, que mostrava todo esse embaraço de conspiração, intrigas políticas e não deixava de mostrar também toda a degradação de uma nação que todos achavam que estava caminhando bem, o final não foi algo que me pegou muito. Acho que finais são sempre complicados em todas as histórias, ainda mais as de volume único que precisam dar um fechamento preciso. Amarrar as pontas soltas em pouco espaço, mas ainda assim...Teve momentos aqui e ali que adorei, que me fizeram ficar O QUE? PORQUE? QUANDO ISSO ACONTECEU E EU NÃO VI? MDS, NÃO PODE SER! Mas havia outros momentos em que eu simplesmente esperei muito mais. Que se desenrolassem de outra maneira pelo modo elaborado como a história foi montada, mas que pareceram acabar se perdendo. Motivos melhores, porquês melhores, uma cena mais dramática. Porque tudo pareceu se resolver rápido, simples e fácil demais. Mas talvez isso seja apenas eu sendo muito exigente. Acho que essas são minhas únicas ressalvas quanto a esse livro. Porque eu ri, alguns ciscos caíram no meu olho (talvez eu estivesse emotiva), xinguei e também senti raiva. Sentimentos que acompanham uma boa história. Mas ainda assim me senti um pouco frustrada com o final.

Em questão de estética, eu simplesmente adorei a capa, como bem esperado da Galera Record que sempre lança edições maravilhosas. A estrutura narrativa da história é um pouco diferente da maioria dos livros que li, porque ela se alterna em mais de uma personagem em primeira e terceira pessoa, se dividindo em três partes.Nas duas primeiras as narrativas alternam-se entre Keralie, em primeira pessoa, e as quatro rainhas, em terceira pessoa, e acontecem em duas linhas temporais diferentes, passado e futuro, mas que fazem todo o sentido depois para explicar o que está acontecendo na história. Na terceira parte, a linha temporal é única e as narrativas mudam para Keralie e Arebella, no caminho para o arco final da história. Achei um pouco confuso no começo, mas acabou fazendo total sentido no final de tudo. Entender todas as partes e pontos de vista que desencadearam tudo que aconteceu. O legal é que, pelo menos para mim, isso não fragmentou a história, na verdade foi apenas me deixando mais curiosa a cada capítulo e com um infinito de porquês a cada um que eu terminava. Me sinto um pouco triste pela história ter chegado ao fim, porque como amante de uma boa saga adoraria poder acompanhar um pouco mais da Keralie, Varin e da própria história de Quadrara, que é muito mais rica do que foi explorada. Ainda assim, acho que é uma leitura que vale a pena ser feita.

“Quando conversamos sobre sua arte, eu vislumbrava o menino que queria mais da vida. Mas sem esperança, ele desbotou, qualquer resistência erradicada. Ensinado a não se importar, ensinado a não querer. Muito embora conhecesse a sensação de cansaço e revolta por conta dos caprichos do destino, eu a usara como combustível, enquanto Varin tinha se deixado consumir até não sobrar nada. Mas ele sonhara um dia; tivera esperança um dia... aquilo ainda estava dentro dele. Em algum lugar.”


Título: As Quatro Rainhas Mortas
Autora: Astrid Scholte
Editora: Galera Record
N° de Páginas: 392
Sinopse:"Na efervescência de paixões proibidas, segredos e alguns mistérios, o reinado das quatro rainhas de Quadrara está ameaçado – resta saber como, e por quem. No continente de Quadrara, há séculos quatro rainhas reinam absolutas, cada uma representando o próprio quadrante. Juntas, mas separadas. A decidida Iris fala por Archia, a ilha de terras férteis; a estoica Corra representa a tecnológica Eonia; Marguerite, a mais velha das rainhas, é a soberana de Toria e de seus curiosos habitantes; e Stessa, a mais jovem, é o rosto de Ludia, o quadrante da diversão e da arte. As quatro mulheres dividem o poder, sempre respeitando as Leis das Rainhas, sempre pensando no povo e no melhor para a nação. Mas elas têm segredos, e estes podem ser letais. Tão letais quanto Kelarie Corrington. Aos 17 anos, a toriana é a mais hábil larápia e a melhor mentirosa de Jetée. um distrito de excessos, contrabando e charlatões. O último lugar que Varin, um mensageiro eonista, deveria visitar. Mas ele foi roubado... por Keralie, e a jovem é a única esperança de reaver a mercadoria e manter seu emprego. Um mensageiro nunca pode perder sua encomenda. Para piorar, há coisas muito mais sinistras nos chips de comunicação afanados por Keralie. Algo que pode enredar a larápia e o mensageiro em uma conspiração para assassinar as quatro rainhas de Quadrara. Sem opção, os dois resolvem se unir para descobrir o assassino e salvar a própria vida no processo. Quando sua relutante parceria começa a se transformar em algo mais, os dois precisam aprender a confiar um no outro e a superar as diferenças entre quadrantes para viver esse amor. Mas será que uma curiosa toriana e um insensível eonista têm alguma chance?"*Exemplar cedido em parceria com a editora. 
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