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O abuso e a libertação em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola

27 de maio de 2020


 Essa certamente é uma daquelas leituras que faço questão de voltar todos os anos, porque sei que sofrerei um impacto diferente a cada leitura. Minha primeira experiência com Maya Angelou foi em Mamãe&eu&mamãe, e percebi que de algum modo a autora trabalhava questões conflitantes de maneira tão intima, nada romântica mas ainda assim verdadeira. Maya ficou conhecida pela sua poesia, mas suas obras autobiográficas certamente são a minha força motora.

Em Eu sei por que o pássaro canta na Gaiola vamos conhecer uma Maya diferente, falando sobre uma de suas primeiras experiências traumatizantes na escola, e logo em seguida discorrendo a respeito da sua infância, se ver como uma criança negra é traumatizante tal qual ser uma criança negra em um período de segregação. Marguerite Ann Johnson foi criada pela avô, tanto ela quanto o irmão cresceram sem a figura dos pais por motivos que vamos entender mais tarde, em seus próximos livros, essa criação deu a ela uma imagem irreal de que seus pais haviam falecidos, afinal nunca apareceram, então um dia um homem de fala rebuscada aparece e avisa que irá levar Maya e o irmão para uma viagem, era seu pai, levando-os para conhecer enfim sua mãe, essa situação em especial dá para Maya uma perspectiva assustadora, sair de sua casa, que sempre foi seu lar para enfim conhecer alguém que nunca fez parte da sua vida, novas experiências, novos traumas, uma infância interrompida pelo medo e por abusos.
 Assim que encontra sua mãe, Maya sente uma espécie de deslocamento, a figura materna foge do comum e é difícil nutrir aquele tipo de amor que se espera, seu irmão sente o contrário, e muitas vezes Maya se pega pensando a respeito disso, acontece que desde sempre a menina aprendeu a ser silenciosa quando deve, obedecer sempre os adultos e nunca questionar, tudo vai bem até a figura do padrasto aparecer, a relação do homem com a garota vai bem até os episódios de terror noturno do irmão começarem a intervir, devido aos gritos, ela é levada para dormir na cama da mãe e do padrasto, até sua mãe sair da cama no meio da noite pela primeira vez e a garota sofrer o primeiro abuso, na mente de uma garota pequena, na fase dos sete anos, isso é apenas carinho, um abraço apertado e mais nada, mas o modo como a autora descreve podemos ver a gravidade da situação, a maneira como o padrasto se aproveita da inocência da criança é desesperadora, o modo como ela descreve se sentir bem com o coração dele batendo rápido faz o nosso peito doer. O próximo abuso acontece alguns meses depois, novamente o homem se aproveitando da ingenuidade da criança mas dessa vez de maneira muito mais invasiva. Maya foi invadida da pior maneira que uma mulher pode ser e nunca mais se recuperou. Apesar das ameaças de morte ela sentiu que deveria contar para mãe e assim o fez, o homem foi julgado e não cumpriu pena, mas logo foi morto pelos familiares de Maya, algo que nunca foi falado a respeito.


 Devido à situação e ao trauma, a garota sentia que era impura, que cedeu ao mundo dos pecados e que se conversasse com outra pessoa, iria corrompe-la também, foi assim que Maya parou de verbalizar, durante 3 anos a garota não conversou com mais ninguém além de seu irmão, se puniu de maneira branda por algo que jamais teve culpa, ela aprendeu a contemplar o silêncio, absorver o pedacinho de cada ambiente e de não se fazer notada.
 Nessa obra em especial, que faz parte da sua série de literaturas, Maya traça o panorama da sua infância até a gravidez, sem qualquer medo de pré julgamento, uma infância difícil não deve ser normalizada ou diminuída por fazer parte de um viés literário, muito pelo contrário, a autora nos mostra o passo a passo do seu crescimento e de suas descobertas mais dolorosas, a infância enquanto negra, o abuso, o silêncio e por fim a libertação por meio da literatura, é assim que a autora volta a verbalizar. Uma obra sincera e dolorosa, repleta de assuntos que nos saltam os olhos e doem o peito, mas imprescindível para você que precisa entender sobre infância, negritude e o que vem depois disso.






Título: Eu sei porque o pássaro canta na gaiola
Autora: Maya Angelou
Editora: Astral Cultural
Nº de páginas: 336
Sinopse: "RACISMO. ABUSO. LIBERTAÇÃO. A vida de Marguerite Ann Johnson foi marcada por essas três palavras. A garota negra, criada no sul por sua avó paterna, carregou consigo um enorme fardo que foi aliviado apenas pela literatura e por tudo aquilo que ela pôde lhe trazer: conforto através das palavras. Dessa forma, Maya, como era carinhosamente chamada, escreve para exibir sua voz e libertar-se das grades que foram colocadas em sua vida. As lembranças dolorosas e as descobertas de Angelou estão contidas e eternizadas nas páginas desta obra densa e necessária, dando voz aos jovens que um dia foram, assim como ela, fadados a uma vida dura e cheia de preconceitos. Com uma escrita poética e poderosa, a obra toca, emociona e transforma profundamente o espírito e o pensamento de quem a lê."








O tempo e o vazio em Trilogia do adeus

26 de maio de 2020


 Qual é o peso do tempo? Como se mede o que te resta? Por que você se preocupa com o que está por vir, ao invés de se preocupar com o que está acontecendo agora? Qual é o peso da cautela de frente ao amor? Carrascoza tem todas as respostas.


 A trilogia do Adeus faz parte daquelas obras que sempre vi de longe mas nunca achei que entenderia, enrolei essa leitura o quanto pude, mas dei de cara com uma citação em determinada rede social e não aguentei. Dividida em três cadernos, vamos entender o valor do tempo e do afeto de maneiras diferentes, no primeiro, Caderno de um ausente(meu favorito) vamos conhecer um pai, apaixonado pelo sua filha que acabou de chegar ao mundo e que tem um desespero por registrar todos os detalhes, essa necessidade vem porque ele é um homem mais velho, que já passou da idade de ser pai e que sabe que não terá muito tempo para aproveitar a filha que acabou de chegar ao mundo, ele aborda situações cotidianas e amenas, de maneira tão detalhada e cuidadosa, na intenção de registrar para a filha o máximo que conseguir. É aí que você começa a se confrontar a respeito do tempo, um homem com os dias contados, dando todo o seu amor para alguém que tem tempo demais e ainda não entende nada, é carinho na sua maneira mais plena.



 Já no segundo caderno, Menina escrevendo com o pai, recebemos a obra de maneira inversa, aqui é a filha escrevendo para um pai que já não se faz mais presente, sendo grata por cada uma das observações que ele fez, e colocando sua voz no mundo de maneira madura. O último, A pele da terra, temos a visão do outro filho, que pouco é mencionado nas obras anteriores, na terceira obra ele já está mais velho e tenta encontrar a linha tênue, o cordão umbilical que alimenta o afeto entre ele e o filho, por meio de uma viagem a dois, ambos vão se encontrando, se descobrindo e se notando no outro, novamente a velhice em frente ao espelho da juventude, o reflexo do eu refutando o desconhecido.



 Cada obra parece ser escrita por uma pessoa diferente, o primeiro me tocou de maneira imensurável, a ternura do pai ciente de que tem pouco tempo com a filha, o seu cuidado em explicar até a menor das coisas é de uma acuidade dolorosa, o segundo tem um ar totalmente jovial, de quem quer descobrir o mundo, de alguém que recebeu uma herança valiosa e que vai fazer valer a pena. O terceiro fecha de maneira densa, amarrada mas real, cumprindo a proposta da narrativa. Carrascoza é um dos meus autores favoritos porque tem um jeito diferente de fazer a leitura andar, ele te pega pelo descuido, te ganha na simplicidade de amar, quem diria que tanto pode se falar do tempo? Quando se trata de estética, a trilogia tem uma proposta diferente, o box(esse aí da capa aqui azul aqui abaixo), tem um tamanho pequeno, pois os três livros são pequenas cadernetas, em formato e fonte diferente, como se de fato alguém usasse cada um desses caderninhos para uma espécie de diário, uma maneira cuidadosa de mostrar o valor de cada pequeno detalhe.







Título: Trilogia do adeus
Autor: João Carrascoza
Editora: Alfaguara
Sinopse: "Nesta trilogia, João Anzanello Carrascoza oferece um panorama que se estende através do tempo para falar da relação fragmentada das famílias. No primeiro livro, Caderno de um ausente (vencedor do prêmio Jabuti 2015 e reeditado agora pela Alfaguara), o pai João escreve uma longa carta para a filha recém-nascida, Beatriz, para o caso de não estar presente no futuro dela. Já no segundo volume, Menina escrevendo com pai, é Bia quem responde, narrando a vida e o relacionamento dos dois. Por fim, em A pele da terra, Mateus, filho mais velho de João e irmão de Bia, narra sua relação com próprio o filho, outro João, durante uma peregrinação. Um olhar tríplice sobre os vínculos entre pais e filhos, e sobre como pequenas ações do cotidiano nos marcam para sempre."  











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